Uma família brasileira pelo mundo

O aspirante a blogueiro se apresenta e se despede

Saturday, January 30th, 2010

Segundo informações enviadas pela minha (prestativa e atraente) assistente em assuntos diversos, que ficou em terra, Barbados é um país soberano, com cerca de 240 mil habitantes, governado por um primeiro-ministro e parlamento. À moda dos ingleses, seus colonizadores, a chefe de estado é a rainha Elizabeth. A ilhota teve sua pujança econômica, enquanto colônia, baseada na cultura da cana-de-açúcar e, independente desde 1966, busca viver do turismo, principalmente de americanos e europeus. A vasta maioria da população (cerca de 90%) é de negros e fala-se inglês, além do dialeto que não se decodifica facilmente. O clima é ameno e suas praias têm areia branquíssima e águas azuis e calmas. Como é a ilha mais oriental do Caribe, portanto a primeira de quem vem da Europa ou da América do Sul, é preferida pelos velejadores que cruzam o Atlântico (como foi o caso do Casulo). Como de praxe, alguns já conhecidos do João Carlos vieram visitar tão logo chegamos: um casal de neozelandeses e um irlandês, além de um belga, todos circundando o mundo separadamente. Tive a idéia com Ivan de gravar o depoimento destes formidáveis viajantes — vida, profissão, família, trajeto de viagem, medos, futuro. Daria, sim, cara Solange, um documentário fantástico, mas faltou-nos energia. Tivemos, confesso, boas idéias e tempo para tal, mas deixemos para outro pit-stop. So sorry.

Depois de ter desancado ontem meus raros e inarredáveis leitores, mandando-os ler blog de terceira, busquei curar minha ressaca com a sessão de bodyboarding promovida pelo capitão. Os mais jovens vibraram, mas entrou tanta água do mar pelo meu nariz, que meu rosto ficou mais “hibratado” na pressão. Foi, entretanto, divertido. Hoje alugamos um carro para explorar a ilha — estradas estreitas, casas pobres e mansões, condomínios em praias recônditas, restaurantes charmosos. Almoçamos num à beira-mar (óbvio) e a posta de peixe grelhada estava divina. No mais, a Lua hoje está cheia, inchada; e acabou-se o rum para me dar coragem para mergulhar no mar, depois de esquentada a goela.

Findas estas duas inesquecíveis semanas, espero ansiosamente reencontrar-me com minha cama em Fortaleza, que me espera com lençóis e travesseiros abertos. Quero rever meus livros, minhas toalhas, meus CDs e DVDs. E as manias de rapaz velho não tardarão a ser retomadas, vero. Mas quero aqui agradecer novamente aos caros amigos Solange e João Carlos pelo fantástico convite desta viagem, que inicialmente me tirou o sono, mas não poderia ter saído melhor. Há cerca de vinte dias, jamais imaginava que minhas férias terminariam assim, tão memoráveis. Registre-se aqui também a alegria do convívio com os tripulantes, e agora amigos — João, Beto, Ivan, Joselle e Lui —, parceiros de biritas, brincadeiras e explorações náuticas.

A tripulação só não ficou completa porque faltou a bordo a amiga e competente filóloga teuto-hispânica Alice MacDow, que presta importante colaboração na tradução que faço de “Os Lusíadas” para o maori erudito. We all missed her. Como já disse aqui, no domingo (31/jan), Ivan, Lui e eu voaremos de volta para o Brasil, com pernoite em Caracas. Neste mesmo dia, Solange e filhas, mais Fernanda (mulher do Beto), chegam ao Casulo. Com sua reconhecida boa energia e competência, a mulher  do capitão em breve retomará o timão do blog. Não desertem, pois.

Para finalizar, alguns leitores que adoram fuxicar sobre a vida alheia cobraram minha apresentação quando os demais o fizeram aqui há alguns dias. Bem, posso dizer que, enquanto o Casulo leva, mundo afora, os meus e os seus sonhos, sou apenas um cara que jogou âncora em Fortaleza e vem tentando evitar que seu barquinho de papel não afunde na piscininha da praia do Futuro.

Até outro dia.

Um beijo e um queijo.

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Pô, não tem Engov neste barco?!

Thursday, January 28th, 2010

Inicialmente, peço desculpa ao(à) distinto(a) leitor por não ter cumprido minha palavra de escrever aqui diariamente, mas sei que compreenderá e me perdoará.

Chegamos a Barbados pelas dez da matina da terça, dia 26/jan. Joselle ganhou o bolão, no qual tentamos adivinhar o horário mais aproximado da chegada. Só o capitão não participou, mas, estranhamente, não apostamos nada. Então, para quê, né? Coisa de quem não tem o que fazer há dez dias num barco.

Desembarcamos horas depois e João foi com Lui ao harbour master, regularizar nossa chegada. Os demais ficamos pela praia, só tomando chegada.

De volta ao barco, bebemos algumas coisitas e nos banhamos no mar tranqüilo. Aliás este vem sendo meu ritual noturno, antes do jantar: beber um trago e pular no mar do Caribe, com a Lua ali brechando. Sem esquecer, ao saltar, o grito de guerra cearense: iieeeeeeiii!!!

Dormimos contentes.

Ontem, quarta, ficamos na internê por um bom tempo, atualizando os assuntos com amigos e parentes. Aproveitamos uma rede que envia sinal da terra, sem necessidade de senha. Piratas virtuais.

Peruamos pelo centro de Bridgetown e lanchamos por lá. Falarei amanhã sobre o país.

Comprei um rum fantástico, chamado Mount Gay (cujo nome me fez lembrar alguns amigos enrustidos), e fiquei bebericando alternadamente com mergulhos no mar.

Alguns foram para terra, conhecer a noite barbeira.

Fiquei atracado com minhas doses de rum e liguei pelo celular para alguns amigos daí, mas não lembro da metade dos papos. Porém recordo do brinde à vida que fiz com o amigo Fred Bx, ele lá com o copo de uísque e suas maquinações empreendedorísticas.

Hoje não poderia faltar a boa ressaca. Os neurônios permanecem meio sonolentos.

Pois então vá lá ler o blog do Nelson Rubens ou da Bruna Surfistinha, que amanhã retomamos.

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Terra à vista

Wednesday, January 27th, 2010

           Quem nasce em Barbados é barbadão? Alguém aí sabe?

            Último turno antes da chegada. Com duração de três horas para cada dupla, João começou às 21h00 com Lui, seguidos por Joselle e Ivan, e Beto e Felipe.

            Agora, pelas quatro da matina, horário de Fortaleza, a Lua quase cheia começa a se esconder. Vê-se pouco lá fora e monitora-se o barco (velocidades, localização, distâncias, rumo, tempo, profundidade do mar, temperaturas do ar e da água) pelas telas no interior da cabine. A Parasailor leva-nos a uma velocidade média de 6,5 nós (12km/h), com vento de proa e o piloto automático corrige o rumo.

            O céu continua aceso, estrelas e mais estrelas fazem-nos sentir a beleza e a insignificância de viver.

            As luzes de Bridgetown, capital de Barbados, iluminam timidamente o horizonte. Pássaros rondaram o barco e avistamos manchas de água esverdeada. Luzinhas de embarcações aqui e ali. Expectativa.

            Sim, expectativa em relação à nossa temporada de shows de pagode pelas ilhas caribenhas. Aproveitamos para pedir aqui e agora, aos nossos dois ou três inarredáveis leitores, sugestão de músicas que devemos incluir no repertório do grupo do Juan Pagodero. Participe, opine djá e concorra a um DVD dos Casulitos e a um engradado de rum de segunda.

            No jantar de ontem, perguntaram se tem McDonald´s em Barbados. Penso que foi uma indireta contra a haute cuisine que pratico aqui com tanto afinco… Insensíveis…

            Dos víveres, não temos mais banana, pão integral, batata, tomate; mas ainda sobram, dentre outros itens, presunto, queijo, massa para pão de queijo, cebola, limão, maçã, pepino, cenoura, manga, arroz, suco, milho para pipoca, barra de cereal, filé mignon, espaguete, lasanha, biscoito, biscoito e biscoito.

            Assunto técnico e interessante: há três velocidades do barco, que se diferenciam entre si pelo referencial, pelos ventos e pelas correntes marítimas. Calculadas pelo sistema informatizado a bordo, a principal é a velocidade do barco sobre a água; a segunda é a SOG (speed over ground), em relação à terra; e a velocidade em relação ao destino (waypoint).

            Ivan, Lui e eu ficaremos em Barbados até dia 31/jan, quando voaremos para Caracas, onde pernoitaremos para pegar o vôo no dia seguinte para Fortaleza. Lá aproveitaremos para jantar com o camarada Chávez e levar nossas mais sinceras saudações bolivarianas. Até porque a realidade brutal nos aguarda em Fortal, com seus dentes cariados e afiadíssimos. Os demais, João, Beto e Joselle ficarão, aguardando Solange e filhas que chegarão em seguida, juntamente com outra fiel leitora nossa, Fernanda, mulher do Beto.

            Entretanto, para conforto do(a) desamparado(a) leitor(a), prometo continuar enviando relatório diário das nossas impressões e peripécias em território barbadão (se não é assim, acabei de inventar).

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Pai marujo e aventureiro que ficou em terra

Wednesday, January 27th, 2010

Querido Filho e seus Amigos,

Não são apenas dois ou três leitores que acompanham a viagem, como relatou com alívio o Felipe…É que muitos não se manifestam…ou por  inveja  inrustida ou por não quererem se expressar mesmo. Confesso que me esforço bem mais do que a média para manter as respostas em dia, de forma a preservar o bom astral do Joshua. Imagino que a falta delas possa aumentar a sensação de solidão já proporcionada pela imensidão do mar… Não tenho a facilidade do vosso relator de expressar os sentimentos, mas, por várias vezes me vi com os olhos marejando, ora pela saudade ora por acompanhar os medos, as preocupações, as felicidades, de todos e principalmente do Felipe que procurava traduzir tudo… Uma delas ” já avistei três estrelas cadentes. Tantas, que me faltaram pedidos. Numa delas, acabei pedindo toda a felicidade do mundo para as criancinhas carentes do Brasil”. Me fez com alegria, lembrar meu paraíso ( as estrelas, que também ocorrem lá, perguntem ao Joshua que paraíso é esse…) e com tristeza, o sofrimento de muitos outros…

Os relatos transcritos no blog nem sempre chegaram em ordem cronológica. Ficamos os primeiros dias sem noticias e bastante ansiosos com as primeiras reações de todos e de tudo… A pitada de humor nem sempre disfarçava… detalhes como lasanha “importada” e “marzão invocado” não passaram desapercebidos. Foram importantes para manter o povo de cá mais tranquilo ( ou preocupado)… Que essa experiência vos façam ver o mundo de outra forma, que dê uma dimensão diferente a participação de cada um ao espaço em volta…

Tou com sono…

 Aníbal

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“Knocking on heaven´s door”

Tuesday, January 26th, 2010

Pelo título deste, o(a) melodramático(a) leitor(a) concluirá que algo terrível nos ocorreu no fim da aventura e estou a digitar às portas do Além, tentando ingressar no Paraíso para abraçar Bob Marley, que celebrizou a frase.

Calma, não é bem assim.

É que estamos a apenas um dia de Barbados, pertinho ali da Jamaica dos dreadlocks e do reggae.

Portanto, quase na ante-sala do paraíso caribenho.

Todavia, como para todo bônus tem um ônus, o marzão despertou meio invocado, na mais genuína acepção da gíria cearense. Enquanto assávamos pão de queijo e fervíamos a água do café, preparando-nos preguiçosamente para o pequeno almoço, uma onda de bom tamanho pegou o barco de jeito e lavou o deck, derrubando mesa, jarrinho de flores e outras coisas, além de desmanchar o plano de Beto, que pretendia se abancar tranquilamente, com sua tigelinha de sucrilhos, para curtir a aurora.

Foi apenas um susto — só para lembrar que Posseidon, que deve ter jantado algo indigesto ontem, é o dono aqui do pedaço. Yes, sir!

Temos recebido atenciosas mensagens de leitores contumazes, elogiando os posts. Agradecemos penhoradamente. Em especial, um salve para o pai do Lui, que nos presenteou com mensagem inspiradíssima e trecho de “O navio negreiro”. Vai outro salve especial para o pai do Joselle, que soube me ler nas entrelinhas. Alívio em saber que ainda temos uns dois ou três pacientes leitores em terra.

Depois do Caribe, a família Lima pretende percorrer o litoral leste dos Estados Unidos; em seguida, cruzará o canal do Panamá para a travessia do Pacífico. Portanto, há ainda muita boa estória por aí, em breve por conta da amiga Solange. Meu agente literário foi contactado pela The Casulo Inc. para eu continuar dando uma força ao blog, mas só decidirei quando chegar a Fortal, porque preciso concluir, nos próximos meses, a tradução que venho fazendo há oito anos de “Os Lusíadas” para o maori erudito.

Às 15h00, enquanto batuco aqui no laptop, passa ao longe um imenso navio branco. Caetano entoa “O último romântico”, enquanto Lui e Joselle cochilam. Ivan, sórdido, assiste no Mac a um filme sobre naufrágio… Vade retro!

João e Beto recolocam a vela Parasailor, aproveitando melhor o vento e tornando a navegação mais confortável, porque as ondas não têm dado trégua. Completando dez dias em high seas, o Casulo prossegue na velocidade média de 5,5 nós (10km/h), mas tenderá a cair, devido aos ventos fracos mais tarde. Posição de 12°20’N e 57°56’W, faltando 101 milhas náuticas (187km) para chegarmos a Barbados. A nova previsão é de que estaremos lá amanhã pelo meio-dia.

Os marujos esgalamidos, pelas 16h00, decidem esquentar o caldo da peixada de ontem misturado com o arroz de caranguejo e ovo cozido. Sem antes perguntar a que horas sairá a lasanha verde (que veio pronta congelada) do jantar, porque tive preguiça de preparar o filé preterido de ontem.

Outro recorde do Casulo, que cravou hoje as 12.000 milhas náuticas percorridas (22.224km). Relembro que nosso percurso, de Fortaleza a Barbados, é de 1.603 milhas náuticas (2.969km)

No jogo de buraco, Beto foi substituído por Ivan. Desta vez, para não desencorajar a jovem dupla Ivan+Lui, João e eu permitimos que sentissem, pelo menos uma vez, o gostinho da vitória. Noblesse oblige.

Enquanto jogávamos, lá fora, no derradeiro pôr-do-sol da travessia, Joselle posava alucinado para a câmera de Beto, atento a todos os ângulos e enquadramentos… Constatamos, surpresos, até onde vai a riqueza da experiência no Casulo, onde um empresário respeitável e honrado pai de família, de cabelos e barba grisalha, subitamente revela-se fotógrafo de arremedo de modelo masculino…

Calamos fundo e voltamos para nossas canastras.

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Elocubrações de um pai emocionado

Monday, January 25th, 2010

Grande Lui,
Já são quase 11 da noite e é difícil deitar, dormir. O Casulo balança um pouco ainda… bem menos que nos outros dias, é certo, mas balança! Now is my turn. Assumo o comando bem mais calmo e já bastante amigo deste imenso leme, até poucos dias assustador. Estou mareado, tonto, mas meu labirinto já não se incomoda tanto. Está aberto para novos sons… ouço o assobio do vento; o mar imenso, guardado em meu cérebro para sempre, fala; sentidos aguçados; sou todo ouvidos agora, embora, só consiga entender algumas palavras e, arrisco dizer, poucas frases; mas, já estamos nos entendendo e agradeço sempre pela sua inquietante paciência. Casulo me auxilia como tradutor deste novo idioma, até então desconhecido pra mim. A lua ilumina pouco e só consigo ver os painéis que nos levam, com segurança, ao nosso destino e um pouco além, onde minha retina consegue captar a luz do Casulo refletida no mar.  Não sou mais analfabeto na cartilha das estrelas. Agora elas sorriem! Viajo com todas aquelas incontáveis embarcações que desbravaram mares e, sorrio para mim mesmo, contente, porque me encontro em Castro Alves, nos primeiros versos de Navio Negreiro:

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos 
Ali se estreitam num abraço insano, 
Azuis, dourados, plácidos, sublimes… 
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas 
Ao quente arfar das virações marinhas, 
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
Como roçam na vaga as andorinhas… 

Donde vem? onde vai?  Das naus errantes 
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? 
Neste saara os corcéis o pó levantam,  
Galopam, voam, mas não deixam traço. 

Bem feliz quem ali pode nest’hora 
Sentir deste painel a majestade! 
Embaixo — o mar em cima — o firmamento… 
E no mar e no céu — a imensidade!”

Não sou mais o mesmo. Aprendi muito. Além da conta. A escola é infinitamente maior que quatro paredes. Sinto-me maior, mais cheio de mim, mais seguro, mais firme e sólido nos inestimáveis e inesquecíveis valores descobertos.Tenho muito a aprender ainda, mas vejo tudo diferente agora. Estou cheio da melhor energia: a do Amor à vida!

Agradeço a Deus por estar aqui. Eternamente grato aos amigos,  Capitain João Carlos, Ivan, Felipe, Joshua, Beto e o Casulo, que me suportaram com suas compreensão, ensinamento, paciência e, sobretudo, amizade! Beyond words !!

Não conto mais os dias para nossa chegada. Tudo tá muito rápido, mesmo com o vento soprando mais lentamente.
Meu medo agora parece ser quando um de nós gritar: Teeerra à viiiistaaa! Mas deixa a vida me levar !!! Agora sou CASULOSO !

De um pai muito feliz por um filho grande homem.

Não esquece  continuar strugeron 12/12 Hs, até chegar em São Paulo. Isso mesmo, 4 dias depois.

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“Vida vento vela leva-me daqui”

Sunday, January 24th, 2010

            Começo enviando um salve para o autor deste sublime verso, o poeta e amigo Augusto Pontes, levado daqui em junho do ano passado.

            De algum modo, estamos sempre indo, ou ao menos querendo ir. Quase todos não sabemos para onde. Mas vamos. Passamos. E só poucos, bem poucos, deixam rastro.

            Portanto, um salve também para os que deixam rastros que nos levam a outros bons caminhos, na expectativa de sermos melhores a cada dia, de crescermos sempre como pessoas honestas, de paz e bem.

            Pela previsão do tempo, o vento amansará e o tempo continuará bom, sem chuva. Completando oito dias no mar, faltam-nos 397 milhas náuticas (735km) para Barbados. Às 10h55min, com posição de 09°02’N e 54°07’W, estamos a cerca de 270 milhas náuticas (500km) a nordeste de Georgetown, na costa da Guiana.

            Hoje, enquanto, os seis tomávamos café da manhã com pão de queijo, falando sobre farras e esbórnias dos grisalhos, na época em que Volta da Jurema e Paracuru estavam em alta, um passarinho veio tentar pegar a isca que estava lançada e mais golfinhos vieram saudar nossa passagem.

            À tarde, João e eu demos uma surra em Beto e Lui, no jogo de buraco. Um peixe mordeu a isca, mas conseguiu soltar-se. O jantar, portanto, será lasanha à bolonhesa, importada congelada de Fortaleza.

            Durante os preparativos, quando Solange me falou da composição da tripulação para esta travessia, concluí que, com os seis, o capitão pretendia mesmo era fazer um grupo de pagode, chamado “Juan Pagodero y los Casulitos”, para sair tocando de ilha em ilha caribenha e afanando trocados em dólares e euros de turistas incautos, encantados com nossa exuberância musical.

Pois assim será: em breve, lançaremos DVD e videoclipe musical, gravado em Porto Rico e Antigua, ao lado de fãs histéricas e curvilíneas. Estrearemos já no exterior em grande estilo. Nos próximos dias, informarei o repertório ensaiado e a quem caberá tocar cada instrumento. Aguardem.

            Até lá, de primeira mão e para deleite geral, os membros do grupo agora se apresentam, nas palavras de cada um:

            João Carlos, capitão (52 anos, engenheiro civil): ”Este menino vive no mundo da Lua”. Tal frase, dita e repetida pela minha querida mãe, d. Ednir, desde os meus seis anos de idade, sintetiza o que se passava na cabeça desde minha remota infância. A mania de sonhar sempre acompanhou este menino até sua fase atual de capitão do Casulo. De lá para cá, muita água rolou em minha vida. Importantíssimo: nesse ínterim, nunca deixei de ser menino nem de sonhar. Fiz meus estudos básicos no colégio Christus. Graduei-me em Engenharia Civil na UFC (turma de 1981). Logo em seguida, casei-me e tive dois filhos lindos, Lívia (25) e Ivan (22), que muito me orgulham. Com doze anos de casado, divorciei-me e, depois de muito sofrimento, quase fui convocado para o “outro mundo” após quebrar, no meu peito, a barra da direção do veículo que dirigia, nas proximidades do Castelão, quando voltava de show do Olodum às 4 da matina, numa quarta-feira, escutando Barbra Streisand. Consciente da necessidade de mudança, assumi um pequeno compromisso comigo mesmo: de ser uma pessoa um pouquinho melhor todos os dias que me fossem concedidos neste segundo turno da minha vida. Uma semana depois, recebi o prêmio de ter tomado a decisão correta: conheci minha atual companheira de todas as horas, Solange. Com ela tenho duas gatinhas lindas e atuais marujinhas, Luana (9) e Marina (8). Não entendo porque as pessoas falam que o segredo da vida é ser feliz. Desde quando fiz as pazes comigo mesmo, sou feliz e não considero isso um segredo. É, sim, um direito de qualquer ser humano que tenha consciência de que estamos nessa vida de passagem. Segundo um amigo meu de farra, o empresário Steve Jobs, ao descobrir que sofria de uma doença terminal, falou: “A vida é muito curta para se viver a vida dos outros”. Para minha sorte, o meu despertar, ao contrário do do meu chapa Steve, não foi causado por doença alguma.

            Beto (53 anos, engenheiro eletricista): casado há 29 anos (de muitas realizações) com Fernanda Romcy, um amor de pessoa. Temos três filhos maravilhosos: Renata (publicitária, trabalhando atualmente no jornal O Povo, noiva de um cara pedra 100, nada de 90, ele é mesmo 100, o Rinaldo); Thiago (engenheiro de telecomunicação, trabalha na Samsung, noivo de uma pernambucana maravilhosa. Tão especial que ele teve que ir à Europa para conhecê-la. Minha nora predileta tem dado uma grande contribuição ao crescimento da nossa empresa, Pacaás Engenharia); e Érica (estudante de Publicidade e atualmente estagia em nossa empresa na área de Comunicação. Linda, e solteira até o momento). Adoro velejar e estou encantado com o Casulo e sua tripulação. A viagem está sendo maravilhosa. Como disse hoje à Fernanda, todas as forças do universo estão colaborando para que esta viagem seja um marco em nossas vidas. Contato: www.pacaas.com.br

            Ivan (22 anos, complicado descrever: formado em Design Digital e, já que grande parte das pessoas não sabe exatamente o que é isso, às vezes nem mesmo eu…). Trabalho com pós-produção de vídeo, efeitos especiais e 3D para qualquer coisa relacionada a imagem em movimento. Não é minha primeira vez a bordo do Casulo; na verdade, minha última estada durou apenas seis meses. Nasci em Fortaleza, morei por sete anos no Rio e, nos últimos cinco anos, tenho vivido no exterior. Identifico-me como a música Pais e filhos: “já morei em tanta casa que nem me lembro mais”. Os meus planos para o futuro estão tão definidos para o meu conhecimento quanto para o seu, mas imprevisibilidade faz parte da vida e gosto disso. Cada dia por vez.

            Joshua (20 anos, estudante de Direito): filho de uma enfermeira, Liana, e de um engenheiro mecânico especializado em automóveis, Aníbal. Sou o caçula da casa, vindo depois do Aaron e do Caleb. Falando da família, não posso deixar de falar da minha avó materna, Vanda, por quem sou louco, alucinado. Da convivência com o trabalho do meu pai, do qual hoje faço parte, surgiu minha paixão pelos carros, o que talvez me leve a fazer algo que não esteja nem um pouco relacionado com o Direito no futuro. Sempre participei de muitas trilhas de carros, como pelos Lençóis Maranhenses, duas vezes, e pela Ilha de Marajó, o que eu chamava de aventura. Mas talvez só agora eu tenha descoberto o que realmente é aventura! O que estou vivendo é uma experiência única, indescritível e totalmente incomparável!

            Lui (19 anos, estudante de Medicina): o mais jovem pagodeiro da tripulação. Nascido em Fortaleza e criado com muito afinco pelo dr. Newton Andrade e pela dra. Cristiana Silveira. Irmãos de coração tenho muitos, mas de sangue são: o já oftalmologista Newton Jr, Nathália e a caçulinha Luana. Desde os meus primeiros passos, já gostava muito de esportes e aventuras, da bila ao rafting. Espero que esta seja a primeira de muitas travessias que farei, pois descobrimos valores de vida inestimáveis. Hoje, sinto-me um membro da casulosa família, sou um casuloso!

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“Is there anybody out there?”

Saturday, January 23rd, 2010

           Para mim, uma das experiências únicas desta viagem é o fato de que, apesar de pretender macaquear aqui o blogueiro-arcaico Pero Vaz de Caminha, não tenho a menor idéia (por limitação de comunicação on line) do que o(a) distinto(a) leitor(a) tem achado dos meus pálidos relatos de viagem (aqui só recebemos mensagens curtas enviadas para o emeio do capitão, que nos chegam uma vez por dia).

            Da mesma forma, faz dias que não vemos um rosto diferente, nem falamos com alguém fora do grupo. O porteiro não interfonará, o assaltante não se apropriará do seu celular no sinal, o carteiro não pedirá sua assinatura para entregar o Sedex, nenhum chato do telemarketing lhe oferecerá o melhor plano de telefonia móvel do mercado. Pior de todas: o amigo não lhe telefonará combinando para tomar umas.

            Portanto, em resposta à pergunta acima da música do Pink Floyd — lá fora, num raio de no mínimo 100km em qualquer direção, só tem mesmo o temperamental Posseidon com seu tridente, reinando nestas águas azuis. Tomara que, até o fim do mês, o deus grego não descontinue seu tratamento com Lexotan.

Sim, disse águas azuis, porque verdes mares existem apenas no nosso Ceará, celebrados pela pena do seo Alencar, que tinha queda por uma indiazinha aprumada.

Hoje completa uma semana que saímos de Fortaleza e aqui cabem comentários sobre o Marina Park, onde o Casulo ficou fundeado por algumas semanas, antes desta travessia.

Para quem não foi além do hotel, o estado da marina é simplesmente deplorável — sem segurança, sem iluminação, sem serviços de apoio. E, sem tudo isso, lá ainda cobra-se diária mais cara do que em certas marinas europeias. Coisa para inglês ver.

Como se quer manter Fortaleza no topo da lista de destinos turísticos brasileiros, quando não se oferece infra-estrutura adequada para o turismo de veleiro? Também neste quesito, perdemos de longe para Recife e Salvador, apesar de termos, como unidade da federação, uma costa ampla e de estarmos mais perto da Europa e dos Estados Unidos.

Assunto mais ameno: recebemos há pouco mensagens com bons fluidos de parentes e amigos queridos que nos acompanham pelo blog. Respondemos na medida do possível, mas asseguro que nos enchem o coração de contentamento.

A tripulação vai bem engajada e Lui, no post de hoje, recebe elogio dos decanos pelo bom gosto na seleção musical — Zeca Pagodinho, Caetano, Cássia Eller, Belchior, Ednardo, Chico Buarque, dentre outros da fina flor.

Mas falta ela, sim, falta a cerveja gelada, a ser sorvida mansa e abundantemente no deck, com o olhar vagueando entre o céu e o mar oceano. Contudo cumpre esclarecer ao(à) apressadinho(a) leitor(a) que não esquecemos de abastecer o Casulo com o precioso fermentado de lúpulo e malte. Não estás a lidar com amadores, é certo. Temos aqui latinhas geladíssimas de Brahma, mais uma caixa de Bohemia na reserva ali a bombordo, que diariamente me desafia a sobriedade. Mas a travessia demanda siso e total controle sobre os sentidos.

Há sete dias no mar, faltam-nos 552 milhas náuticas (1.022km) para Barbados. Às 13h50min, com posição de 07°04’N e 52°23’W, estamos a cerca de 170 milhas náuticas (315km) a nordeste de Paramaribo, na costa do Suriname.

            Para o jantar, preparei frango ao curry com arroz, assessorado por Joselle (codinome artístico do Joshua, que adora posar para fotos), mas, pelas 18h00, fomos surpreendidos por um atum que se deixou fisgar e acabou se transformando em sashimi vinte minutos depois, tira-gosto fresquíssimo da cervejinha comemorativa de uma semana a bordo.

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Casulo bate recorde de distância

Friday, January 22nd, 2010

 Início de dia diferente: em decorrência dos chuviscos de ontem à noite, o calor amenizou e o mar encrespou-se mais ainda. A travessia, portanto, melhorou e piorou. Sensível leitor(a), imagine-se numa montanha russa durante o dia todo, ouvindo pancadas fortes das ondas no casco, que dão a impressão de que o catamarã atingiu algum arrecife. O cerebelo testado ao máximo. O sono picado. Alerta. Mas são situações diferentes como estas que valorizam a viagem. Aguçam-se os sentidos. Sai-se da zona de conforto. Não obstante minhas observações acima, sei que você ainda rói-se de inveja e por isso mesmo tem meu perdão — ego te absolvo. Com seis dias de velejo, chegamos à metade da travessia — atingimos 800 milhas náuticas pelas 09h40min. Com posição de 04°25’N e 49°28’W, acabamos de passar pela foz do Oiapoque e estamos a 60 milhas náuticas (111km) da costa da Guiana Francesa. Nesta quinta, após algumas medições, o Casulo bateu recorde: percorreu mais de 200 milhas náuticas (370km) em um dia, graças ao condescendente Tufão. Dentre os variados recursos de navegação disponíveis, destaco hoje dois: (a) cartas náuticas baixadas da Internet, que nos dão informações bem mais detalhadas do que as impressas. Com aquelas, localiza-se um obstáculo e refaz-se a rota com poucos cliques do mouse. O capitão esclarece, entretanto, que as impressas, na versão mais atualizada, são as mais confiáveis; e (b) serviço que fornece, sempre que solicitado por emeio, a previsão do tempo em determinada área a ser percorrida, com intervalos de doze horas. Para os próximos dias, portanto, previsão de ventos constantes, com picos de 25 nós (46km/h). O capitão está absorto na leitura de seu livro; Beto idem e já superou o enjôo; Ivan e Lui têm cochilado bastante; e Joshua, de tanto tirar foto, ganhou de mim o apelido de Giselle (ou Joselle, para os íntimos). No mais, nesta quinta-feira que desliza mansa, avistamos dois barcos grandes ao longe e, no cardápio, tivemos creme de frango e lagarto com arroz (pratos que vieram congelados, portanto sem minha participação direta, ressalto). Desde que saímos, não temos notícia do que se passa neste Brasilzão desmantelado, exceto pela informação de que o Flamengo ganhou do Duque de Caxias, que não tem a menor relevância para os peixes-voadores ali fora.

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Quem me navega é o mar

Thursday, January 21st, 2010

Excluindo o pit-stop em Jeri, no sábado passado, já estamos há quatro dias em alto-mar. O vento tem nos sido benévolo, imprimindo boa velocidade ao Casulo, mas em compensação o balanço não cessa. Sobe e desce, sacode, patina dum lado para outro, equilibra-se aqui com uma perna, segura-se ali com o mindinho… Aqui quem diz as regras é ele, o supremo Oceano, filho dos deuses gregos Terra e Urano.

O Casulo é, mesmo, apenas um casulo diante desta magnitude, que se impõe pela força, pelo mistério e pela beleza. Só se avista mar — até onde o olhar puder, só mundão de água azul. Lembro-me de uma piadinha sobre um comentário feito por um homem rústico do Brasil profundo, quando avistou pela primeira vez o Atlântico, fazendo aquelas ondas que vão e vêm: “Eita marzão véi besta!…”

Céu com poucas nuvens. Vento constante à noite, mas durante o dia nem tanto. Às 11h00, fica ao sul a ilha de Marajó, a cerca de duzentas milhas náuticas (370km). Nada de terra à vista, pois. Nesta travessia, a velocidade média tem sido de 7 nós (convertendo para km/h, multiplica-se por 1,852, resultando em 13km/h), com vento de través a estibordo (isto é, soprando à direita do barco) e força do vento por volta de 5 E/NE, o que é bem satisfatório, pois dispensa motores. Mas balançamos bem. Nos últimos dias, mantivemos içadas as duas velas brancas, a principal e a Genoa. Sem considerar o desvio para Jeri, a travessia total, de Fortaleza a Barbados, é de 1.603 milhas náuticas (ou 2.970km). Agora faltam-nos 960 milhas náuticas, que, pela velocidade média acima, devem ser percorridas em seis dias. Portanto, nosso ETA (estimated time of arrival), ou previsão de chegada, é 26/jan/2010 — com as bênçãos de Iemanjá.

Temos duas refeições diárias: café com leite e sanduíche misto pela manhã (ou Coca-Cola para uns destemperados), e jantar pelas 17h00, cujo cardápio tem variado como descrito nos dias anteriores. O plat du jour foi filé mignon (que cedera espaço para o peixe de anteontem) e espaguete ao molho de tomate, que mantiveram o chef em alta cotação. Durante todo o dia, ficam à disposição da tripulação: banana, maçã, manga, laranja, tangerina, limão, barra de cereal, biscoito, bolacha, suco, refrigerante e água gelada. E la nave và.

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