Nada como encontrar uma boa ancoragem depois de uma velejada desconfortavel. A previsao era de vento vindo do sul, ideal para subir para as ilhas mais ao norte da Grecia que nesta epoca do ano sempre tem como vento prevalecente o meltemi, o famigerado vento do Norte que reina no verao. O capitao organizou tudo para sairmos as 17h da tarde para que pudessemos passar o dia no hotel Seagarden na Turquia, uma superestrutura preparada para receber alemaes. Todos os funcionarios turcos falavam alemao. O hotel, sem campo de golfe, tem tres restaurantes, dois bares, um espaco para shows, um mini bazar, um shopping, um health center, uma academia, um clube de criancas, um centro de esportes nauticos e centenas de empregados com sorrisos prontos para atender aos desejos dos hospedes. Ganhei uma massagem! Merecida. Havia ateh esquecido o que eh ter um tempo soh para si. Sai revigorada e consegui inventar em 20 minutos um lanche com pao pita integral, espinafre, feta e alho que foi aprovado pela tripulacao. Seguimos viagem as 18h com o sol ainda alto e o vento ainda fraco. Pela previsao meteorologica, o vento ia pegar as 22h e quando a noite caiu, o vento de fato chegou. Durou pouco porem e foi inconstante. O Joao ficou ligadissimo no barco e nao parava de ajustar as velas para aproveitar a forca eolica. Ficou 12 horas de plantao! Eu tentei ao maximo ficar do seu lado mas o sono me venceu por duas vezes e tive que capitular. O Ivan ainda ensaiou de ficar junto, acordou no primeiro chamado as 23h, levantou soh para dormir sentado na mesa da sala! Joao foi excepcional e comandou o barco com habilidade ateh chegarmos em uma ancoragem na ilha de Fourni, na Grecia. A noite foi cheia de acao com transito intenso de cargueiros, navios cruzeiros e barcos de pesca.
O calculo para ancorar tem que ser feito levando em consideracao provaveis mudancas de vento que podem fazer o barco pivotar 360 graus. As 9, pulei da cama e avisei para o Joao da mudanca do vento e como o barco estava pertinho da praia. Nesta hora, nao tem cansaco, nem sono, tem que criar energia para puxar o barco e procurar um lugar mais seguro. Enquanto saia, o Joao estava lendo o pilot book (um livro especializado em descrever baias, praias e alternativas de ancoragem). Nao havia recomendacoes para a ilha de Fourni adequadas para aquele vento. Alem disto, havia baias com cabos submersos aonde a ancoragem era proibida e outros pontos com bases militares nas quais veleiros tambem nao sao benvindos. E agora? Decisao era seguir para Samos ou aproveitar o vento e subir ateh a ilha de Chios. Vamos velejar quanto mais norte possivel!!! decide o capitao.
Vento forte na popa do barco fez o Casulo voar a 10 nos por hora. O velejo foi desconfortavel e passei muito mal. Ficou todo mundo enjoado enquanto o Joao surfava com o Casulo. Seis horas depois, o capitao refletiu e achou que melhor seria voltar para Samos aonde poderiamos atracar mais cedo e curtir um pouco mais a ilha jah que temos a limitacao de voltar no dia 12 para Santorini para encontrar o Olavo e a D. Ednir. Foi aplaudido de pe! Depois de mais 3 horas, voltamos para Samos aonde atracamos no porto publico. O mar estava calmo, mal podiamos imaginar o que viria pela madrugada. As 5 da manha, vem um ferry gigantesco todo iluminado entrando pela baia criando uma marola enorme que balancou o Casulo contra o paredao de concreto causando diversos choques que foram amenizados pelas defensas todas alinhadas no lugar certo. Depois desta quem dorme? Esperamos as criancas acordarem para tomarmos cafe e procurar outra alternativa, quando somos surpreendidos por outro ferry ainda maior que o primeiro causando um disturbio no mar ainda maior. O Joao foi para o cais e ficou ajustando as defensas, que segundo ele chegaram ao maximo da contracao. Ele disse que se eu tivesse lah fora vendo a situacao, teria morrido ou me jogado entre o Casulo e o paredao para minimizar o dano. Ponto de novo para as defensas que ajudaram o Casulo a sair ileso. Nao dava para esperar mais e delegar para a sorte, tinhamos mesmo que sair. Todos os outros barcos comecaram a sair tambem sofrendo com a situacao. O capitao nos instruiu sobre a desatracada e a manobra perigosa para sair do porto. Ivan e eu a postos, soltando as amarras e segurando as defensas para qualquer eventualidade. Como jah tinhamos tido o problema na saida de Kos, quando puxamos a corda mais longa e o Casulo ficou preso quase batendo no cais, ficamos muito mais ligados desta vez e ensaiamos mentalmente todos os passos e acoes caso algo desse errado. Os motores foram ligados a toda para nao dar chance ao acaso. Ufa! A velejada agora foi uma valsa. O Casulo deslizava macio pelas ondas com vento soprando gentilmente de popa acelerado pela corrente visivelmente favoravel. Foi a primeira vez que apreciei o velejo. Todos estavam tranquilos depois de tantos sufocos sucessivos. As criancas ouviam musica com o Ivan e nem viram o tempo passar quando encontramos esta baia idilica e deserta no leste da ilha de Samos. Tripulacao sai para explorar e eu fiquei soh a bordo fazendo o jantar e arrumando o barco. Estava feliz. O silencio na baia era quebrado apenas por passaros que cantavam ao longe. A lua subia alta e nem precisava estar completamente cheia para suavemente romper a escuridao. jantamos a luz de velas para economizar energia e fomos dormir cansados e satisfeitos.