“Is there anybody out there?”
Saturday, January 23rd, 2010Para mim, uma das experiências únicas desta viagem é o fato de que, apesar de pretender macaquear aqui o blogueiro-arcaico Pero Vaz de Caminha, não tenho a menor idéia (por limitação de comunicação on line) do que o(a) distinto(a) leitor(a) tem achado dos meus pálidos relatos de viagem (aqui só recebemos mensagens curtas enviadas para o emeio do capitão, que nos chegam uma vez por dia).
Da mesma forma, faz dias que não vemos um rosto diferente, nem falamos com alguém fora do grupo. O porteiro não interfonará, o assaltante não se apropriará do seu celular no sinal, o carteiro não pedirá sua assinatura para entregar o Sedex, nenhum chato do telemarketing lhe oferecerá o melhor plano de telefonia móvel do mercado. Pior de todas: o amigo não lhe telefonará combinando para tomar umas.
Portanto, em resposta à pergunta acima da música do Pink Floyd — lá fora, num raio de no mínimo 100km em qualquer direção, só tem mesmo o temperamental Posseidon com seu tridente, reinando nestas águas azuis. Tomara que, até o fim do mês, o deus grego não descontinue seu tratamento com Lexotan.
Sim, disse águas azuis, porque verdes mares existem apenas no nosso Ceará, celebrados pela pena do seo Alencar, que tinha queda por uma indiazinha aprumada.
Hoje completa uma semana que saímos de Fortaleza e aqui cabem comentários sobre o Marina Park, onde o Casulo ficou fundeado por algumas semanas, antes desta travessia.
Para quem não foi além do hotel, o estado da marina é simplesmente deplorável — sem segurança, sem iluminação, sem serviços de apoio. E, sem tudo isso, lá ainda cobra-se diária mais cara do que em certas marinas europeias. Coisa para inglês ver.
Como se quer manter Fortaleza no topo da lista de destinos turísticos brasileiros, quando não se oferece infra-estrutura adequada para o turismo de veleiro? Também neste quesito, perdemos de longe para Recife e Salvador, apesar de termos, como unidade da federação, uma costa ampla e de estarmos mais perto da Europa e dos Estados Unidos.
Assunto mais ameno: recebemos há pouco mensagens com bons fluidos de parentes e amigos queridos que nos acompanham pelo blog. Respondemos na medida do possível, mas asseguro que nos enchem o coração de contentamento.
A tripulação vai bem engajada e Lui, no post de hoje, recebe elogio dos decanos pelo bom gosto na seleção musical — Zeca Pagodinho, Caetano, Cássia Eller, Belchior, Ednardo, Chico Buarque, dentre outros da fina flor.
Mas falta ela, sim, falta a cerveja gelada, a ser sorvida mansa e abundantemente no deck, com o olhar vagueando entre o céu e o mar oceano. Contudo cumpre esclarecer ao(à) apressadinho(a) leitor(a) que não esquecemos de abastecer o Casulo com o precioso fermentado de lúpulo e malte. Não estás a lidar com amadores, é certo. Temos aqui latinhas geladíssimas de Brahma, mais uma caixa de Bohemia na reserva ali a bombordo, que diariamente me desafia a sobriedade. Mas a travessia demanda siso e total controle sobre os sentidos.
Há sete dias no mar, faltam-nos 552 milhas náuticas (1.022km) para Barbados. Às 13h50min, com posição de 07°04’N e 52°23’W, estamos a cerca de 170 milhas náuticas (315km) a nordeste de Paramaribo, na costa do Suriname.
Para o jantar, preparei frango ao curry com arroz, assessorado por Joselle (codinome artístico do Joshua, que adora posar para fotos), mas, pelas 18h00, fomos surpreendidos por um atum que se deixou fisgar e acabou se transformando em sashimi vinte minutos depois, tira-gosto fresquíssimo da cervejinha comemorativa de uma semana a bordo.



