Uma família brasileira pelo mundo

Archive for January, 2010

Sobre golfinhos e xixi (ou When you wish upon a star)

Tuesday, January 19th, 2010

            Ei, você já fez xixi em alto-mar, batizando as águas azuis do Atlântico norte, em homenagem à aurora?
            Ou qual situação você prefere, às sete e meia da matina: ficar entalado no engarrafamento perto do Iguatemi (se quiser, na Marginal Pinheiros) ou ser acompanhado por cinco golfinhos que festejam a passagem do Casulo?
            As duas perguntas acima já bastariam para este post; ou até para esta travessia.
            Entretanto, como sei da inveja e da curiosidade do(a) dileto(a) leitor(a), estendo-me falando sobre a madrugada de hoje, quando ventou bem, fazendo-nos cruzar o paralelo do Equador pelas 02h30min (longitude: 44°13’), ainda no turno que cumpri com Beto.
            A chuva ameaçada ontem não veio e o céu estava iluminadíssimo, com uma nesga da Lua de quebra. Revelar-se-á cheia em breve, aguardemos.
João regulou as velas e dormiu pouco, pois assumiu às 03h00 o turno com Joshua, o chapeiro milagroso que, fazendo jus ao nome, segue multiplicando, ainda hoje, a picanha de sexta em recheio de sanduíches matutinos. Beto continua mareado e resolveu tomar remédio. Lui tem se revelado um eficiente lavador de pratos.
            Falando em comida, hoje programei sururu no caldo da peixada de ontem; para os menos afoitos, peito de frango no molho tikka masala com cubinhos de manga on the side.
Sim, guloso(a) leitor(a), passa-se muito bem no Casulo — a missão organizacional da nossa cozinha aqui é fazer até o almirante Nelson (que Netuno o tenha) lamber os beiços. Pelo menos enquanto durarem os víveres.
Tive um papo agradável e longo com Ivan sobre literatura e cinema, gostos que nos são comuns. Disse-lhe que não me atraem os best sellers, nem os Dan Brown e Paulo Coelho que por aí abundam; prefiro investir meu tempo em Shakespeare e Antônio Lobo Antunes (não é afetação, please).
Na boca da noite, quando começou meu turno, que fiz com o capitão, avistamos um navio de cruzeiro branco e iluminado, talvez de passeio pelo Amazonas. A chuva ameaçou novamente, mas só ameaçou.
Nesta viagem, já avistei três estrelas cadentes. Tantas, que me faltaram pedidos. Numa delas, acabei pedindo toda a felicidade do mundo para as criancinhas carentes do Brasil, tentando me ombrear a Pelé (ou foi Romário?).

O mar que nos alimenta

Monday, January 18th, 2010

Tive a impressão de que o mar, à noite, andara meio irritadiço, mal humorado com alguém. Como eu não estava de vigília, pensei em chuva forte, com ventos, mas depois me explicaram que nada de anormal aconteceu — eram apenas as velas e a posição do barco em relação à corrente marítima, que fizeram o Casulo balançar mais. Pelas seis e meia da matina, já tínhamos substituído as velas, com explicações mais detalhadas do João sobre a finalidade de cada uma. Tomamos café novo e tratei de me banhar mirando o infinito, onde a água derrama-se no céu. Os mais jovens dormiram a manhã toda. Mandamos emeios pelo Iridium, incluindo a primeira atualização que fiz deste blog. Os demais tripulantes deram risada com as peripécias que descrevi. Ainda bem, porque tenho a mania feia de perder o amigo, mas não perder a piada — e isto dentro de um barco de 42 pés (cerca de 12,6m de comprimento) não é nada recomendável. Ivan foi convocado para eliminar todas as moscas, herança de Jeri. Corrijo-me: o capitão distribuiu a missão para todos, estipulando uma quota mínima de vinte moscas por tripulante. E assim ficamos, catando moscas em alto-mar no meio da tarde, enquanto milhões em Fortaleza se estapeiam para ganhar os trocados do jantar. Falando em jantar, pensei em descongelar o filé mignon, mas o capitão fisgou um dourado de cerca de um metro de comprimento e a peixada ficou obviamente na pole position. Caprichei nos ingredientes (inclusive ovo cozido), Lui preparou o arroz com alho sob meus auspícios, e sentamo-nos os seis, pela primeira vez, para um lauto jantar acompanhado de suco de maracujá. Estava, sim, divino, sem falsa modéstia — o capitão agora querendo me levar para a travessia no Pacífico… Pena que tivemos de interromper por causa da chuva que ameaçava, e ainda ameaça pelas 19h00 (latitude: 00°37’S; longitude: 43°35’W). Céu escuro, chuva rápida, mas deve vir mais durante a noite. Cuidados. Sem esquecer o recife Manuel Luís, área perigosa, localizada na baía de São Marcos, ao norte de São Luís do Maranhão. Sim, refiro-me ao mesmo mar, provedor e traiçoeiro.

Post by Felipe Barroso a bordo do Casulo

Like any other given Sunday

Sunday, January 17th, 2010

Saímos de Jericoacoara pelas 07h20min (latitude 02°47’S; longitude 40°31’W), sem muito vento, o que nos levou a usar os motores por umas três horas, em direção nordeste, sempre, para chegarmos logo à profundidade de mais de cem metros.
Dia quente, sem muita animação, rostos de ressaca, pouca conversa.
Um domingo qualquer.
Os mais jovens lancharam algo e a picanha servida na sexta ainda rende nos sanduíches preparados por Joshua. Pela primeira vez, fiquei meio mareado, talvez por causa das horas a mais passadas em terra firme; permaneci boa parte do tempo deitado e levantei-me apenas para preparar o jantar, com valiosa ajuda do Lui, que tudo fatiou e picou: arroz jasmine com camarão, molho shoyu, ovos, cenoura, alho, cebola, tipo aquele arroz oriental servido mundo afora. Tenho usado pouco sal, mas a galera elogia e torna a encher o prato, talvez para não contrariar este arremedo de chef, que pode, súbito, começar a arrochar na pimenta e na soda cáustica.
Impressiona o alto consumo de refrigerante pelos mais jovens — em poucos dias, brinco, tomaremos apenas água do mar sem dessalinizar.
Findo o jantar, assumi o turno com Beto, das 18 às 22h00, quando conversamos, dentre outros assuntos, sobre Nogueira Accioly, que já foi dono do Ceará e desafeto do grande Rodolfo Teófilo, sanitarista e escritor que, por sua vez, integrou a Padaria Espiritual, grupo artístico-literário que existiu na última década do século XIX no Ceará, a respeito do qual fiz meu primeiro documentário.
Ainda conversei com Ivan sobre a vinda do cineasta Orson Welles ao Ceará e aproveitei para fustigar sobre o monopólio e a força dos meios de comunicação (como previra o norte-americano há quase cinqüenta anos), que também atinge de cheio brasileiros e venezuelanos, ainda que em proporções distintas.
Sobre a situação recentemente vivida pelos nossos vizinhos, no governo Chávez, recomendo o documentário “A revolução não será televisionada” (cujo diretor não lembro seu nome agora).
            A vela Parasailor substituiu os motores e, no fim do dia, estamos a quase trezentas milhas náuticas de Fortaleza e, no mínimo, velejando a 120 metros sobre o fundo do mar.
            O capitão não jantou, dormiu bastante e não sei se seus sonhos sobre Jeri serão ou não televisionados.

A Disney do capitão

Saturday, January 16th, 2010

Na madrugada de hoje, desviamos um pouco o curso para Jericoacoara, a fim de deixar em terra documentos de viagem que foram esquecidos no barco.
            Estes deveriam retornar a Fortaleza, transportados por alguém confiável que esperávamos encontrar na tal vila de pescadores.
            O vento continuava bom, mas tivemos que baixar a vela para frear o barco e chegar a Jeri com sol.
            Fundeamos a poucos metros da costa pelas cinco da matina, tomamos café colombiano fresco com misto quente e mergulhamos no mar, enquanto o sol se espreguiçava. Mais tarde, cervejinha com castanha e camarão à alho e óleo, enquanto windsurfistas faziam piruetas ao redor do barco. Papo mole, sensação de paz.
            João, the captain que está botando Jack Sparrow no chinelo, é uma alegria só por ter chegado a Jeri no Casulo, mais ainda num sábado de férias. Meu sobrinho de doze anos de idade, se ganhasse todas as free rides nos parques de Orlando, não ficaria mais empolgado. Ele tentou nos explicar, transmitir sua satisfação, relatou algumas de suas estripolias aqui, mas não sei se nos convenceu.
            O certo é que precisávamos desembarcar para, confiando no acaso, achar alguém conhecido que pudesse levar de volta os documentos para Fortaleza. Em seguida, tocaríamos o barco — afinal, Barbados, e não Jeri, nos espera.
            Entretanto, não era bem o que o capitão tinha em mente: de fato, desembarcamos, sorvemos algumas geladas, andamos pelo povoado em busca de um rosto familiar, esperamos infinitamente por umas iscas de peixe que nunca chegaram, e encontramos, sem grande dificuldade, uma pessoa que prestaria o favor.
Pronto, pelas 15h00, nossa missão já estava cumprida e o Atlântico nos aguardava de volta. Assim esperávamos, tão ingenuamente.
Ocorre que o capitão quis almoçar e continuar batendo o centro em não-sei-quantos outros bares do vilarejo. No fim da tarde, já almoçados e espezinhados por batalhões de muriçocas, que ele bravamente ignorava, fomos por ele convocados a subir a duna para apreciar o pôr-do-sol, tão famoso de Jeri, para onde vim apenas duas vezes e não tinha planos de incluir nas minhas futuras viagens, pelo menos nesta encarnação. Decidi não subir, mas prometi que os aplaudiria tão logo alcançassem memorável feito.
Já no escuro, banhamo-nos ali mesmo no bar mais próximo da duna (de uma sequência de outros, que nos acolhiam com certa desconfiança).
De lá, fomos à creperia, fazendo hora para os tais eventos musicais que tanto animavam o capitão. Maldita a hora em que alguém mostrou a ele o anúncio de um show em tributo a Bob Marley, que ocorreria, coincidência das coincidências, naquela justíssima noite. Tal tripulante passará, na hora certa, alguns dias de diarréia, graças ao divino “tempero” do cuca vingador…
Na nossa tentativa de fuga, pensamos em pedir ao Ivan para nos levar de volta ao barco, mas a maré já baixava àquelas horas e não tínhamos, apenas os quatro (Beto, Lui, Ivan e eu), como levar o bote pesado até a água. Nem Ivan poderia, muito menos, retornar com ele, sozinho, à terra.
Resignado, numa cadeira do hotel Mosquito Blue, à beira-mar, dormi que ronquei, enquanto um grupo de funcionárias públicas de algum município do Inferno, velhotas e feiosas, fazia algazarra ali pertinho, por estarem na tal praia paradisíaca.
Encurtando a estória, Beto e Lui, meus companheiros de motim, bebemos mais algumas cervejas, comemos pipoca e tomamos sorvete, na expectativa de acelerar a noite, de encurtar o tempo, de enganar o relógio, sei lá, porque estávamos cansados de ser enxotados de bares e lanchonetes. Maquinamos mais algumas soluções que nos levariam ao barco, sem sucesso, e, feito condenados à guilhotina, voltamos às cadeiras do Mosquito Blue para tentar agarrar o resto de sono, alheios à metade de Jeri que dançava reggae.
Tomamos café na padaria Santo Antônio e, pelas sete da matina do domingo, encontramos o resto da valorosa tripulação ao lado do bote, prontos para zarpar.

Caribe, here we go!

Friday, January 15th, 2010

            A despedida do Marina Park, em Fortaleza, foi calorosa, amigável, cheia de sorrisos.
            Saímos pelas 09h20min e começamos logo a arrumar bagagem e alimentos.
            Dos seis tripulantes, os três mais jovens arrearam logo na primeira hora e dormem desde então, cada qual numa cama. Nõs, os três gatosos (gatos idosos), continuamos firmes: eu organizando parte dos víveres, armazenando comida e pensando no que fazer para o jantar; os outros dois, João e Beto, voltados inteiramente para o barco, porque levantamos vela depois de umas duas horas de mar.
            Transcorridas quase quatro horas da nossa partida de Fortaleza, já passamos pelo porto do Pecém, cruzamos com um cargueiro e avistamos ainda uns aerogeradores.
            Empurrados pelo vento; a vela, uma Parasailor azul com detalhes brancos, é bonita, inchada, grávida de nada.
            Inigualável a sensação de flutuar n´água com John Coltrane no ipod, com o marulhar, com o vento que ouriça tudo. Raros já sentiram isso e, por este motivo, talvez seja difícil (ou impossível) abandonar o prazer de navegar. Sem falar no constante desafio, insegurança e sedução que o mar oferece.
            Detalhe: sou marujo novatíssimo, de primeira viagem mesmo (permita o clichê), mas já me deixo encantar pela experiência.
            Jantamos picanha ao forno com espaguete al sugo, mais refrigerante. Refeição de bicho corajoso, para menosprezar mesmo enjôo e quaisquer outras sensações ruins logo no primeiro dia.
            Falando em menosprezo, providenciei duas camisetas com mensagens para, na saída, fazer pouco caso de figuras lendárias ligadas ao mar — João vestiu uma dizendo “Jack Sparrow, here I come!”, referindo-se ao personagem vivido por Johnny Depp em Piratas do Caribe, e eu desdenhei da figura aterradora para embarcações, com “The Kraken sucks”.            O turno em duplas, com duração de quatro horas, começou oficialmente às 18h00, com João e Joshua; seguidos por Ivan e Lui às 22h00; e por mim e Beto às 02h00 já do sábado (latitude: 02°46’S; longitude: 39°47’W).

Partida do Casulo

Friday, January 15th, 2010

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Apesar de todos os prognósticos contrários e de todo o trabalho para deixar o Casulo pronto, a nossa casa partiu de Fortaleza na manhã do dia 15. Foi estranho me despedir vendo-o cruzar a linha do horizonte enquanto eu ficava em terra com as crianças. Desta vez, o Capitão João partiu com 5 tripulantes que aceitaram o desafio para sentir na pele o que é uma travessia. Os tripulantes desta vez foram Beto, Felipe, Ivan, Joshua e Lui. O Felipe ficou de mandar notícias pelo telefone satélite e ficarei atualizando o blog a partir do ponto de vista deles. Na foto, Joshua e Marina na despedida.

Nova tripulação do Casulo até Barbados

Friday, January 15th, 2010

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Estamos aguardando o texto do Felipe. Até agora recebi notícias telegráficas que estavam cruzando a linha do Equador. Grande progresso para uma tripulação que passou a noite de Sábado em Jericoacoara e conseguiu se desvencilhar dos encantos de Circe. A outra notícia é que o Professor está se garantindo como chefe de cozinha. Se há elogios para comida significa que estão comendo e que o enjôo inicial passou. Excelente sinal!
Fotos do Anibal (pai do Joshua)

Reportagem na RedeTV

Thursday, January 14th, 2010

Repercussão da chegada do Casulo

Saturday, January 9th, 2010

Foi muito bacana a repercussão da nossa chegada. Muitos estavam curiosos para saber um pouco mais do nosso estilo de vida e conhecer o Casulo por dentro. Nos últimos dias, o Casulo parecia uma atração turística na marina de Fortaleza. Recebemos todos que por lá apareceram com os braços abertos e pudemos enfim compartilhar esta experiência que estamos vivendo ao vivo.

Para quem não pode ver o barco, esta foi a matéria que saiu na RedeTV

http://www.redetv.com/portal/Video.aspx?52,15,80333,Jornalismo,RedeTV-News,Familia-realiza-sonho-viajando-pelo-mundo

Imagens da chegada

Monday, January 4th, 2010

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Nossa chegada foi emocionante apesar de todo o suspense. Passamos por tempestade, falha no equipamento elétrico de navegação durante o trajeto mas fomos recepcionados por golfinhos em águas cristalinas do Nordeste Brasileiro. Chegamos no Porto do Mucuripe no meio da regata Dragão do Mar. Os nossos verdes mares ficaram coloridos por velas das jangadas tenazes que perpetuam ainda hoje a nossa tradição de mar. Ao adentrarmos a marina, uma das hélices retráteis não abriu, a âncora enganchou e a tensão a bordo foi grande. Foi mais um susto, porque tudo no Casulo tem que ser com emoção!!!

Mas para compensar, aqui vão os links do que saiu na TV e nos jornais.

http://tvverdesmares.com.br/bomdiaceara/familia-veleja-pelo-mundo/

http://digital.opovo.com.br/reader2/Default.aspx?pID=13&eID=2155&lP=12&rP=13&lT=page