Uma família brasileira pelo mundo

“Knocking on heaven´s door”

Pelo título deste, o(a) melodramático(a) leitor(a) concluirá que algo terrível nos ocorreu no fim da aventura e estou a digitar às portas do Além, tentando ingressar no Paraíso para abraçar Bob Marley, que celebrizou a frase.

Calma, não é bem assim.

É que estamos a apenas um dia de Barbados, pertinho ali da Jamaica dos dreadlocks e do reggae.

Portanto, quase na ante-sala do paraíso caribenho.

Todavia, como para todo bônus tem um ônus, o marzão despertou meio invocado, na mais genuína acepção da gíria cearense. Enquanto assávamos pão de queijo e fervíamos a água do café, preparando-nos preguiçosamente para o pequeno almoço, uma onda de bom tamanho pegou o barco de jeito e lavou o deck, derrubando mesa, jarrinho de flores e outras coisas, além de desmanchar o plano de Beto, que pretendia se abancar tranquilamente, com sua tigelinha de sucrilhos, para curtir a aurora.

Foi apenas um susto — só para lembrar que Posseidon, que deve ter jantado algo indigesto ontem, é o dono aqui do pedaço. Yes, sir!

Temos recebido atenciosas mensagens de leitores contumazes, elogiando os posts. Agradecemos penhoradamente. Em especial, um salve para o pai do Lui, que nos presenteou com mensagem inspiradíssima e trecho de “O navio negreiro”. Vai outro salve especial para o pai do Joselle, que soube me ler nas entrelinhas. Alívio em saber que ainda temos uns dois ou três pacientes leitores em terra.

Depois do Caribe, a família Lima pretende percorrer o litoral leste dos Estados Unidos; em seguida, cruzará o canal do Panamá para a travessia do Pacífico. Portanto, há ainda muita boa estória por aí, em breve por conta da amiga Solange. Meu agente literário foi contactado pela The Casulo Inc. para eu continuar dando uma força ao blog, mas só decidirei quando chegar a Fortal, porque preciso concluir, nos próximos meses, a tradução que venho fazendo há oito anos de “Os Lusíadas” para o maori erudito.

Às 15h00, enquanto batuco aqui no laptop, passa ao longe um imenso navio branco. Caetano entoa “O último romântico”, enquanto Lui e Joselle cochilam. Ivan, sórdido, assiste no Mac a um filme sobre naufrágio… Vade retro!

João e Beto recolocam a vela Parasailor, aproveitando melhor o vento e tornando a navegação mais confortável, porque as ondas não têm dado trégua. Completando dez dias em high seas, o Casulo prossegue na velocidade média de 5,5 nós (10km/h), mas tenderá a cair, devido aos ventos fracos mais tarde. Posição de 12°20’N e 57°56’W, faltando 101 milhas náuticas (187km) para chegarmos a Barbados. A nova previsão é de que estaremos lá amanhã pelo meio-dia.

Os marujos esgalamidos, pelas 16h00, decidem esquentar o caldo da peixada de ontem misturado com o arroz de caranguejo e ovo cozido. Sem antes perguntar a que horas sairá a lasanha verde (que veio pronta congelada) do jantar, porque tive preguiça de preparar o filé preterido de ontem.

Outro recorde do Casulo, que cravou hoje as 12.000 milhas náuticas percorridas (22.224km). Relembro que nosso percurso, de Fortaleza a Barbados, é de 1.603 milhas náuticas (2.969km)

No jogo de buraco, Beto foi substituído por Ivan. Desta vez, para não desencorajar a jovem dupla Ivan+Lui, João e eu permitimos que sentissem, pelo menos uma vez, o gostinho da vitória. Noblesse oblige.

Enquanto jogávamos, lá fora, no derradeiro pôr-do-sol da travessia, Joselle posava alucinado para a câmera de Beto, atento a todos os ângulos e enquadramentos… Constatamos, surpresos, até onde vai a riqueza da experiência no Casulo, onde um empresário respeitável e honrado pai de família, de cabelos e barba grisalha, subitamente revela-se fotógrafo de arremedo de modelo masculino…

Calamos fundo e voltamos para nossas canastras.

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5 Responses to ““Knocking on heaven´s door””

  1. Giovanni Paulo Says:

    Deliciosa a narrativa do amigo Felipe, assim como certamente deliciosos os quitutes decorrentes de sua maestria culinária. Mas de dar água na boca mesmo, tal qual pensamento em tamarindo, é a beleza do azul profundo do mar que ora enche os olhos dos marujos do Casulo. Avante companheiros de viagem! É isso mesmo, pois cá navegamos tal e qual pelas ondas da internet, acompanhando as marolas da aventura náutica. Forte abraço a todos.

  2. Edu Caminha Says:

    Meu irmão John,
    Rapaz você arrumou aí um escriba de primeira grandeza. Digno de substituir temporariamente a cumade Sol nas bem traçadas letras, óbvio…

    Que DEUS os continue guiando por estes mares bravios.

    Beijão,
    Edu Caminha

  3. boba marley Says:

    espero q a tripulação do casulo já tenha recebido um “yo, brOw” dos barbudos e cabeludos de barbados. se caracteriza por uma batida de mão fechada no peito esquerdo seguida por um “give me five”. se for acompanhado de um back, melhor ainda. e ai, felipe, encarou?
    sei q o felipe sente muito a minha falta, mas, pelo visto, tem sobrevivido.
    quem no entanto não está passando muito bem, situação q se agravou dos ultimos 8 pra cá, é a comunidade maori. ontem mesmo, li no “maori times” que estão fazendo passeatas e protestos reclamando o fim da tradução dos lusíadas…
    um dia sai.
    :-)

  4. Camila Barroso Says:

    Gente, entrei de gaiata no site do Casulo e adorei a experiência de acompanhá-los! Já estou com saudades da viagem!! heheheh
    Espero que a Solange nos delicie com as experiências das próximas viagens!
    Bons ventos e boas ondas sempre!!

  5. marcos vinícius Says:

    Olá Pessoal! Fiquei aguardando contato de vocês e como não escreveram resolvi escrever novamente. Só agora fiquei sabendo que roubaram o notebook de vocês. Espero que estejam em paz e com muita saúde. Boa Viagem! Fiquem sabendo que fico com uma pontinha de inveja de vocês, mas saibam que minha inveja é santa viu? Eu adoraria fazer uma viagem de barco e aproveitar e me deliciar da natureza e das belezas deste marzão de meu deus. Um grande abraço a todos!

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