Uma família brasileira pelo mundo

Quem me navega é o mar

Excluindo o pit-stop em Jeri, no sábado passado, já estamos há quatro dias em alto-mar. O vento tem nos sido benévolo, imprimindo boa velocidade ao Casulo, mas em compensação o balanço não cessa. Sobe e desce, sacode, patina dum lado para outro, equilibra-se aqui com uma perna, segura-se ali com o mindinho… Aqui quem diz as regras é ele, o supremo Oceano, filho dos deuses gregos Terra e Urano.

O Casulo é, mesmo, apenas um casulo diante desta magnitude, que se impõe pela força, pelo mistério e pela beleza. Só se avista mar — até onde o olhar puder, só mundão de água azul. Lembro-me de uma piadinha sobre um comentário feito por um homem rústico do Brasil profundo, quando avistou pela primeira vez o Atlântico, fazendo aquelas ondas que vão e vêm: “Eita marzão véi besta!…”

Céu com poucas nuvens. Vento constante à noite, mas durante o dia nem tanto. Às 11h00, fica ao sul a ilha de Marajó, a cerca de duzentas milhas náuticas (370km). Nada de terra à vista, pois. Nesta travessia, a velocidade média tem sido de 7 nós (convertendo para km/h, multiplica-se por 1,852, resultando em 13km/h), com vento de través a estibordo (isto é, soprando à direita do barco) e força do vento por volta de 5 E/NE, o que é bem satisfatório, pois dispensa motores. Mas balançamos bem. Nos últimos dias, mantivemos içadas as duas velas brancas, a principal e a Genoa. Sem considerar o desvio para Jeri, a travessia total, de Fortaleza a Barbados, é de 1.603 milhas náuticas (ou 2.970km). Agora faltam-nos 960 milhas náuticas, que, pela velocidade média acima, devem ser percorridas em seis dias. Portanto, nosso ETA (estimated time of arrival), ou previsão de chegada, é 26/jan/2010 — com as bênçãos de Iemanjá.

Temos duas refeições diárias: café com leite e sanduíche misto pela manhã (ou Coca-Cola para uns destemperados), e jantar pelas 17h00, cujo cardápio tem variado como descrito nos dias anteriores. O plat du jour foi filé mignon (que cedera espaço para o peixe de anteontem) e espaguete ao molho de tomate, que mantiveram o chef em alta cotação. Durante todo o dia, ficam à disposição da tripulação: banana, maçã, manga, laranja, tangerina, limão, barra de cereal, biscoito, bolacha, suco, refrigerante e água gelada. E la nave và.

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2 Responses to “Quem me navega é o mar”

  1. Camila Barroso Says:

    Apesar de nunca ter tido a feliz experiência que esses “bacanas” estão desfrutando, estou curtindo demais a viagem com a descrição e impressões do Felipão!
    Curtam bem aí, que eu me divirto com vocês aqui, com o meu pezinho no chão, sem balanços ou enjôos… heheheh

  2. Lena Says:

    Felipe

    As palavras são importantes, mas estou certa que a experiência é indescritível!

    Bons ventos!

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