Uma família brasileira pelo mundo

Like any other given Sunday

Saímos de Jericoacoara pelas 07h20min (latitude 02°47’S; longitude 40°31’W), sem muito vento, o que nos levou a usar os motores por umas três horas, em direção nordeste, sempre, para chegarmos logo à profundidade de mais de cem metros.
Dia quente, sem muita animação, rostos de ressaca, pouca conversa.
Um domingo qualquer.
Os mais jovens lancharam algo e a picanha servida na sexta ainda rende nos sanduíches preparados por Joshua. Pela primeira vez, fiquei meio mareado, talvez por causa das horas a mais passadas em terra firme; permaneci boa parte do tempo deitado e levantei-me apenas para preparar o jantar, com valiosa ajuda do Lui, que tudo fatiou e picou: arroz jasmine com camarão, molho shoyu, ovos, cenoura, alho, cebola, tipo aquele arroz oriental servido mundo afora. Tenho usado pouco sal, mas a galera elogia e torna a encher o prato, talvez para não contrariar este arremedo de chef, que pode, súbito, começar a arrochar na pimenta e na soda cáustica.
Impressiona o alto consumo de refrigerante pelos mais jovens — em poucos dias, brinco, tomaremos apenas água do mar sem dessalinizar.
Findo o jantar, assumi o turno com Beto, das 18 às 22h00, quando conversamos, dentre outros assuntos, sobre Nogueira Accioly, que já foi dono do Ceará e desafeto do grande Rodolfo Teófilo, sanitarista e escritor que, por sua vez, integrou a Padaria Espiritual, grupo artístico-literário que existiu na última década do século XIX no Ceará, a respeito do qual fiz meu primeiro documentário.
Ainda conversei com Ivan sobre a vinda do cineasta Orson Welles ao Ceará e aproveitei para fustigar sobre o monopólio e a força dos meios de comunicação (como previra o norte-americano há quase cinqüenta anos), que também atinge de cheio brasileiros e venezuelanos, ainda que em proporções distintas.
Sobre a situação recentemente vivida pelos nossos vizinhos, no governo Chávez, recomendo o documentário “A revolução não será televisionada” (cujo diretor não lembro seu nome agora).
            A vela Parasailor substituiu os motores e, no fim do dia, estamos a quase trezentas milhas náuticas de Fortaleza e, no mínimo, velejando a 120 metros sobre o fundo do mar.
            O capitão não jantou, dormiu bastante e não sei se seus sonhos sobre Jeri serão ou não televisionados.

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