Uma família brasileira pelo mundo

A Disney do capitão

Na madrugada de hoje, desviamos um pouco o curso para Jericoacoara, a fim de deixar em terra documentos de viagem que foram esquecidos no barco.
            Estes deveriam retornar a Fortaleza, transportados por alguém confiável que esperávamos encontrar na tal vila de pescadores.
            O vento continuava bom, mas tivemos que baixar a vela para frear o barco e chegar a Jeri com sol.
            Fundeamos a poucos metros da costa pelas cinco da matina, tomamos café colombiano fresco com misto quente e mergulhamos no mar, enquanto o sol se espreguiçava. Mais tarde, cervejinha com castanha e camarão à alho e óleo, enquanto windsurfistas faziam piruetas ao redor do barco. Papo mole, sensação de paz.
            João, the captain que está botando Jack Sparrow no chinelo, é uma alegria só por ter chegado a Jeri no Casulo, mais ainda num sábado de férias. Meu sobrinho de doze anos de idade, se ganhasse todas as free rides nos parques de Orlando, não ficaria mais empolgado. Ele tentou nos explicar, transmitir sua satisfação, relatou algumas de suas estripolias aqui, mas não sei se nos convenceu.
            O certo é que precisávamos desembarcar para, confiando no acaso, achar alguém conhecido que pudesse levar de volta os documentos para Fortaleza. Em seguida, tocaríamos o barco — afinal, Barbados, e não Jeri, nos espera.
            Entretanto, não era bem o que o capitão tinha em mente: de fato, desembarcamos, sorvemos algumas geladas, andamos pelo povoado em busca de um rosto familiar, esperamos infinitamente por umas iscas de peixe que nunca chegaram, e encontramos, sem grande dificuldade, uma pessoa que prestaria o favor.
Pronto, pelas 15h00, nossa missão já estava cumprida e o Atlântico nos aguardava de volta. Assim esperávamos, tão ingenuamente.
Ocorre que o capitão quis almoçar e continuar batendo o centro em não-sei-quantos outros bares do vilarejo. No fim da tarde, já almoçados e espezinhados por batalhões de muriçocas, que ele bravamente ignorava, fomos por ele convocados a subir a duna para apreciar o pôr-do-sol, tão famoso de Jeri, para onde vim apenas duas vezes e não tinha planos de incluir nas minhas futuras viagens, pelo menos nesta encarnação. Decidi não subir, mas prometi que os aplaudiria tão logo alcançassem memorável feito.
Já no escuro, banhamo-nos ali mesmo no bar mais próximo da duna (de uma sequência de outros, que nos acolhiam com certa desconfiança).
De lá, fomos à creperia, fazendo hora para os tais eventos musicais que tanto animavam o capitão. Maldita a hora em que alguém mostrou a ele o anúncio de um show em tributo a Bob Marley, que ocorreria, coincidência das coincidências, naquela justíssima noite. Tal tripulante passará, na hora certa, alguns dias de diarréia, graças ao divino “tempero” do cuca vingador…
Na nossa tentativa de fuga, pensamos em pedir ao Ivan para nos levar de volta ao barco, mas a maré já baixava àquelas horas e não tínhamos, apenas os quatro (Beto, Lui, Ivan e eu), como levar o bote pesado até a água. Nem Ivan poderia, muito menos, retornar com ele, sozinho, à terra.
Resignado, numa cadeira do hotel Mosquito Blue, à beira-mar, dormi que ronquei, enquanto um grupo de funcionárias públicas de algum município do Inferno, velhotas e feiosas, fazia algazarra ali pertinho, por estarem na tal praia paradisíaca.
Encurtando a estória, Beto e Lui, meus companheiros de motim, bebemos mais algumas cervejas, comemos pipoca e tomamos sorvete, na expectativa de acelerar a noite, de encurtar o tempo, de enganar o relógio, sei lá, porque estávamos cansados de ser enxotados de bares e lanchonetes. Maquinamos mais algumas soluções que nos levariam ao barco, sem sucesso, e, feito condenados à guilhotina, voltamos às cadeiras do Mosquito Blue para tentar agarrar o resto de sono, alheios à metade de Jeri que dançava reggae.
Tomamos café na padaria Santo Antônio e, pelas sete da matina do domingo, encontramos o resto da valorosa tripulação ao lado do bote, prontos para zarpar.

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