Este vai ser grande porque o contraste do pisar em terra depois de tantos dias no mar, aflorou os nossos sentidos e ficamos cheios detalhes para compartilhar com vcs.
Finalmente chegamos a ilha do Sal em Cabo Verde ontem ao amanhecer. O Joao fez com o Casulo viesse só na vela para que adentrassemos a baía desconhecida sem carta náutica na escala detalhada pelo menos à luz do dia. Deu certo! Ele estava morto porque teve que passar a noite em claro super atento a qualquer obstáculo já que estávamos mais próximo à costa. São bóias de pesca, pequenos barcos, rochas levemente aparentes que podem dar sérios problemas. Enfim, sua atenção foi recompensada e chegamos aqui são e salvos para embarcar o Dennis de volta para o Brasil.
Estava me coçando inteira para arrumar o barco depois da maratona de 8 dias no mar! OITO! Imagina como tudo estava de cabeça para baixo. Ligamos o gerador, o dessalinizador de água, coloquei a criançada para estudar, a máquina de lavar pra funcionar e VRUUM comecei a aspirar tudo o que vinha pela frente. Parecia um furacão! Trabalhei muito mas consegui deixar o barco mais vivível.
Enquanto a revolução acontecia aqui dentro, o João e o Dennis desceram na ilha para dar entrada nos papéis e no visto. Voltaram escandalizados! Nós esperávamos a ilha pobre mas não paupérrima! Eles disseram que tudo era caríssimo e precário apesar da moeda não valer nada. Aqui eles usam o escudo de Cabo Verde. 110 equivalem a 1 euro.
A ilha do Sal não fica nada a dever a mais pobre cidade do interior do Ceará. Como parte da experiência de conhecer outras culturas, resolvemos sair para jantar por lá sabendo que não íamos conseguir nada melhor do que um PF de restaurante de beira de estrada do Nordeste. Saímos às 5 horas da tarde com um catraia, como me ensinou o Dennis, barco táxi! Nosso taxista chamava-se Grilo e já estava totalmente melado antes do anoitecer. Fui na proa do seu barquinho de madeira com a mão esticada pronta pra evitar qualquer choque com os outros barcos que calmamente ancoravam na baía esperando a hora de cruzar o Atlântico. O Grilo com sua pele escura reluzente e dentes amarelos fala um português enrolado aonde mistura espanhol e francês porque usa de todos os recursos para se comunicar com os turistas e fazer uma graninha.
A língua oficial daqui é português mas todos eles falam crioulo entre si. Impossível decifrar qualquer palavra mas é bonito de ouvir. Curto e rápido! Ao desembarcar, levei um choque. Depois de tantos portos Europeus, ficamos mal acostumados. Mas é um bom treino para o que nos espera no Caribe… Subimos a ruela principal aonde todos os olhos nativos nos acompanhavam. sempre chegava um querendo oferecer alguma coisa, um quadro feito de areia, um cinto rastafári, um dvd pirata… Entramos uma van e pedimos para ir para a cidade de Espargos. O motorista da Van era um negão rapper com 10 anéis em cada mão e jaquetas de ouro nos dentes. Sua van tinha os bancos de plástico vermelho e branco e rangia por todo lado. Ao nos sentarmos, ele abre um sorriso e vira um toca dvd para os passageiros. Começa a passar na telinha um clip de música local. Um baticum sem fim acompanhado de umas mulatas rechonchudas em um frenético balançar de quadril. Ficamos mesmerizados no primeiro momento porque o ritmo é tão forte que parece nos deixar em transe. Depois começamos a rir e a nos divertir comentando sobre a opulência das dançarinas crioulas!
Aqui a Africanidade é muito forte e conseguimos rastrear muitas das influências baianas. A paisagem que se desenrolava no caminho revelava uma terra árida e desabitada. Aqui toda a água é dessalinizada e só vivem 7 mil pessoas que dependem quase que exclusivamente do turismo. Ficamos nos indagando quem vem para cá com tantas opções mais interessantes no resto do mundo. A cidade era pequena com pavimentação de pedra e casa baixinhas. Procuramos o MELHOR restaurante da cidade e nos recomendaram uma lanchonete chamada BOM DIA. Depois de desconfiarmos da informação e procuramos por mais uma hora qualquer coisa relamente melhor, resolvemos que o Prego no Prato da lanchonete era a nossa opção mais segura de refeição. Bisteca gordurosa com batata frita e arroz! Voltamos na mesma van que desta vez esperou lotar para partir. A Marina fez a viagem de nariz tampada pelo cheiro forte de cigarro e pinga que exalava dos outros passageiros. Eu, o João e o Dennis tivemos um acesso de riso na van quando imaginamos que o Lagildo era para ter vindo para esta ilha ao invés da polida e moderna Iha da Madeira.
Quando procuramos o nosso taxista do mar, imaginamos que ele devia estar para lá de embriagado às 8 horas da noite. Procuramos uma outra alternativa… Bares cheios o Sábado à noite e ninguém interessado em sair da cachaça para ganhar 2 euros. O João conseguiu fisgar um coitado que cambaleando entrou no seu bote de madeira. O borrachudo mal consegui ligar o motor que ficou pivotando em torno de si mesmo esperando um comando do dono que ainda estava se encontrando. Era rir para não chorar. O homem não conseguia distinguir a gente de um poste, o barco da calçada como é que ia nos levar com as duas crianças. Eis que surge na escuridão do mar, o Grilo que realmente não estava sóbrio mas de tanto fazer aquela viagem, estava no automático e conseguiu nos levar a salvo para o Casulo. Depois de tanto tempo no mar, morrer em um trajeto de bote não ia ter muita graça… Descobrimos que tem um ¨oásis¨ turístico aqui chamado Santa Maria aonde ficam todos os hotéis que justificam aqui a existência de um aeroporto internacional.
Vamos amanhã ancorar por lá e descobrir se existe algo além de ¨Irauçuba¨na ilha do Sal.