Ontem enquanto continuávamos a arrumar o Casulo para a travessia, aconteceu uma coisa que nos atingiu profundamente. As lágrimas há muito guardadas verteram e tivemos um momento tão bonito proporcionado pelos nossos amigos que viagem passou a ter uma nova dimensão. Foi uma chacoalhada nos nossos valores e mais uma vez uma lembrança do que realmente vale a pena. Mas vamos voltar atrás para contextualizar tudo…
Há uma semana que não páramos de organizar o Casulo. Fizemos uma limpeza profunda de 10 horas seguidas com uma faxineira, era um esfrega aqui, esfrega acolá sem fim. Aspiramos os colchões, as cortinas, cada cantinho com a superRainbow da Margareth. Conseguimos debelar cada foco de mofo que insistia em brotar. Trocamos as capas dos edredons, travesseiros, lençois e toalhas. Foram 40 kg de roupa lavada. Abrimos todos os alçapões do barco para inspecionar. Descobri lugares que nestes 30 meses que moramos no Casulo, nem sabia que existiam. Fizemos várias viagens ao supermercado para poder abastecer. Tivemos que estocar no espaço reduzido dos armários 5 carrinhos com comida transbordando para que pudessemos aguentar um mês no mar. Cada espaço foi meticulosamente limpo e ocupado. Tem comida guardada até dentro de panela de pressão! Fizemos também algumas alterações importantes que consumiram tempo e muito dinheiro. Em um momento tinham 5 pessoas simultaneamente trabalhando a bordo enquanto as crianças estudavam e eu insistia em fazer uma sopa saudável de espinafre para poder nos esquentar do vento frio que açoitava de fora, lembrando-nos a todo momento que já era Outono e que já devíamos estar há muito tempo nas ilhas Canárias. Foram dias e dias de desgaste interno enquanto aumentava a ansiedade e o medo da partida. Neste interim, tivemos sempre o apoio incondicional da Salete e do Zé Augusto. Eles também nos apresentaram a Margareth e o Felipe que também nos encantaram e foram fundamentais para que passássemos por todo este processo até aqui. A Margareth ligava sempre pelas manhãs com um sorriso que nos iluminava e nos dava disposição de passar por mais uma etapa do que parecia não terminar nunca! Sentamos à sua cozinha para elaborar um cardápio para a travessia, experimentamos receitas, fui apresentada a produtos novos e fizemos juntas a longa lista de compras. O Felipe foi muito carinhoso ao nos receber em sua casa, sempre bem humorado e amável conosco e com as crianças. Sentou com a Marina e conversou sobre o que é ser fashion designer e desenhou junto com ela um croquis. Ela ficou fascinada! Afinal não é sempre que aos 7 anos se pode cruzar com um fashion designer de verdade e conversar com ele de igual para igual. Estas pequenas coisas não tem preço. A Salete e o Zé tem uma vida super atribulada aqui. Eles comandam 4 empresas ligadas a barcos e o dia deles nunca é suficiente para dar conta de tudo. Mesmo assim, eles estavam sempre atentos a nós. A Salete me convidou um dia para almoçar e dar uma pausa porque meu ritmo é trabalhar até a exaustão! Enquanto isso, eu vou atropelando todo mundo… O nível de estresse ao meu redor fica às alturas e o clima fica mesmo insuportável. O nosso amigo Lagildo chegou para fazer estes primeiros trechos conosco e logo percebeu o clima tenso. Consegui sair com ela, apesar de tentar me sabotar várias vezes. Fiz uma compra para mim! Cremes e produtos para me cuidar, não cuidar dos outros, mas de MIM. Ela tem uma vida superequilibrada no sentido de conseguir ser mãe, empresária, dona-de-casa, esposa e ainda ser ELA. Tirar um tempo para ela, se valorizar, se nutrir para poder aguentar o tranco. E como aguenta! Ela tem sido um grande modelo de garra, de determinação, de percepção e de generosidade. Tem sido um presente poder compartilhar estes momentos com o casal que depois de 25 anos ainda continua apaixonado. O Zé ainda ri das piadas da Sá e adora todas as suas encenações e brincadeiras. É bonito de ver…
Apesar de todos os revezes, o tempo foi passando e o dia da partida chegando. O João viu na previsão do tempo, uma brecha no Sábado e temos que partir. Fizemos então o jantar de despedida com direitos a troca de presentes e mil agradecimentos. Quando chegamos no barco para tomar um cálice de vinho do porto especialíssimo oferecido por eles, fui trazer a tona a estória do pára-brisa do barco que foi fabricado com defeito. Quem reclamou, recebeu da fábrica. Eu achava um absurdo não termos mais direito por não termos reclamado na época da garantia. Na realidade, não era o pára-brisa, eram todas as frustações acumuladas que se concentraram naquele mero objeto. Ele era um pretexto para que eu pudesse externar uma série de questões minhas não resolvidas. Estraguei a noite. Fiquei mal, sem dormir com um engasgo na garganta. Esperei dar 9 horas e liguei para o Zé pedindo desculpas. Ele sempre muito educado disse que não tinha problema. Expliquei da minha tensão e que a questão do pára-brisa não era para ter aquela importância afinal temos recebido muito e é nisto que temos que concentrar. Aliviei um pouco mas comecei o dia rançosa. Ao meio-dia, chega um funcionário da Plastimo com um pacote enorme. Ao entregar o pacote, suas instruções são para ler a dedicatória em voz alta. Já imaginávamos o que estava por vir… Porque tudo da Salete é teatral com um toque de grandioso e de sublime. É ela! Este post vai ser enorme mas não dá para resumir uma ópera cortando logo esta ária. Aqui está a carta:
“Querido Casulo,
Estivemos aí ontem e mal pudemos lhe ver! Sabe como é, muitas coisas por cima de você, deu para termos uma visão parcial do que poderá ser você, todo lindo, imponente a atravessar os oceanos!
Por outro lado, ficamos felizes em poder partilhar contigo e com os seus pais de momentos maravilhosos juntos neste tempo que estivemos a bordo.
Mas temos que confessar uma coisa:
Quando chegamos em casa e deitamos nossas cabeças nos travesseiros, veio um remorso! Então é você o que leva os seus pais por este mundo afora, que tenta não falhar e estar presente como um verdadeiro “filho”, assistiu toda a família ganhar presentes de natal e brindarem na sua frente com um porto especial!!! E você??? Nada!!! Assistiu calado, sem reclamar como sempre!
Aí pensamos, pôxa ele também tem o direito de estar mais bonito, de ficar mais valorizado e com este presente também proporcionar uma maior transparência por este mar afora.
Desculpe a nossa falha Casulo! Mas sempre há tempo de reconhecer aqueles que contribuem para momentos agradáveis e inesquecíveis, como você!
Esperamos que aproveite bem este presente Casulo, que passe um natal maravilhoso com seus pais e no mínimo que pedimos como forma de agradecimente é: Se portar bem!!!”
Beijos, boa viagem
Novembro/2009
Salete e Zé Augusto
Pode? Eles nos deram de presente o bendito pára-brisa! O Casulo ficou tão feliz, tão lisonjeado que agora não quer saber de mais ninguém. Elegeu seus padrinhos!
Chorei todas as cartas que não escrevi para os amigos em momentos difíceis. Chorei os presentes que não tive tempo de presentear. Chorei o tempo disperdiçado em discussões fúteis. Chorei toda a tensão represada.
Sentimo-nos não merecedores de tanta atenção e tanto carinho e chorei de novo.^
A eles, o nosso obrigado de coração.
Viajaremos mais leves, mais valorizados e com a perspectiva reajustada do que realmente importa.