A tormenta
Depois do Crapun estar seguro em terra, o João resolveu checar a previsão do tempo para organizar a nossa partida para o sul. Os prognósticos eram ruins com chuvas e ventos fortes mudando de direção nos próximos dias. Teríamos que sair no dia seguinte ou passar mais uma semana esperando uma “janela” no tempo. Na manhã seguinte, fomos com o Casulo até o porto para fazer a mudança do Elio. Tivemos um pequeno incidente com uma policial alemã que trabalha no porto e cismou que estávamos querendo desrespeitá-la por estarmos descarregando em um cais comercial. Mais drama. Ela não se sensibilizou por nada. Irredutível e arrogante. Mais drama. Tivemos que atracar o Casulo no cais da gasolina e descer para fazer um recurso na Capitania. Elio e João juntos, ninguém segura, não é? Usando toda a diplomacia, conseguiram tirar a multa de 600 euros.
Faz-se mais uma vez supermercado enquanto está atracado. Estoca-se e iça-se vela.
O primeiro trecho foi aparentemente cruel. O mar estava confuso e o CASULO balançou um bocado. Fiquei mal talvez por ter passado tanto tempo fazendo trechos curtos. Foram quase dois meses no paraíso das ilhas Baleares fazendo viagens que duravam poucas horas.
Organizamos os turnos de vigília para os três. João ficava de 2200 até 0100, Ivan ficava de 0100 até 0400 e eu ficava de 0400 até 0700. Neste período, cada um se responsabiliza pela segurança do barco, checando pelo radar e pelo AIS qualquer ameça que possa vir contra o CASULO. Temos que monitorar o vento e ajustar a vela ou o curso para garantir o melhor desempenho. Qualquer som, qualquer movimento diferente pode indicar um perigo e a responsabilidade de quem está fazendo o shift (turno) é enorme! Como estava sem sono, troquei com o Ivan e tive a chance de ver pela primeira vez os golfinhos fluorescentes!
O segundo dia foi glorioso. O tempo estabilizou e o João conseguiu colocar a parasailor para nos levar. Foi uma velejada suave e muito tranquila. O Capitão colocou a isca despretensiosamente porque a lenda diz que peixe pega-se no alvorescer e no entardescer. Lenda! Pescamos um atum e três dourados! A Marina estava radiante e o João nem se fala.
Comemos o melhor sashimi de atum do mundo! Tratado na hora e preparado com capricho, impossível comer peixe mais fresco e mais natural. Depois comemos dourado frito e atum marinado com gengibre, alho, molho de soja e limão. Foi só peixe!
Mas segundo o ditado, depois da bonança, vem a tempestade! Ou será o contrário? No nosso caso, veio a tempestade! Os ventos mudaram de orientação e o padrão se desfez deixando o mar grande e tulmutuado. As crianças foram proibidas de sair ao convés. Quem tivesse fora, teria que estar com colete salva-vidas e clipado as linhas de segurança do barco. O mar cresceu e as ondas ficaram assustadoras. Nessas horas, não dá para ficar enjoada porque a adrenalina anula tudo. O João começou a se preocupar com a vela que teoricamente aguenta até 30 nós. Usando o raciocínio de kitesurfista, resolveu soltar um cabo para aliviar a pressão. Quando fez isso, tencionou um outro cabo que estourou e chicoteou pelo barco, deixando a vela agitando descontroladamente no céu escuro. Enquanto eu contia o grito de desespero e corri para segurar a vela, o Ivan agiu. A vela por pouco não me leva e me cospe naquele mar encrespado. Com uma tranquilidade fora no normal, o Ivan puxou a camisa que guarda a vela e amarrou o que podia na alça na frente do convés. O João pediu para que eu fosse para o timão, enquanto os dois juntos poderiam domar a vela e guardá-la fora do vento! Foram momentos de muita tensão e o Ivan deu um show de tranquilidade na hora do sufoco.
O resto da viagem foi com os dois motores a toda com um vento través enquanto cruzávamos o estreito de Gibraltar, um dos maiores tráfegos de cargueiros do mundo. Observando pelo monitor, parecia que estávamos jogando um videogame. Era barco para todo lado, vindo de todas as direções!
