CRAPUN
Fatalidades acontecem com todo mundo. A gente nunca sabe quando chega a hora. Ah, se soubesse… Há alguns dias atrás conhecemos o Hélio e tivemos um encontro memorável. Saímos da baía de Espalmador para ficar mais protegidos. O vento que vinha não era nada extraordinário mas como eu passo mal com qualquer balancinho, o Capitão resolveu procurar abrigo. O Crapun do Hélio ficou em Espalmador seguro em uma poita. Acontece que o vento foi contínuo durante a noite chegando a picos de 32 nós. O anel que segurava o seu cabo a poita era de metal e fico forçando e esgarçando o cabo durante horas. Imperceptível para quem está a bordo. Até que o cabo rompe-se a 1 hora da madrugada. De sopetão, o velejador luta e faz tudo ao seu alcance para impedir o choque do seu barco. Ele ainda conseguiu ligar o motor que pelo retardo natural pouco adiantou, soltou o que pode de âncora mas o solo arenoso e muito arado pelas âncoras de outros barcos também não conseguiu evitar o encalhe! No primeiro momento, o barco pousa na areia suave mas ao longo da noite as ondas foram empurrando para a praia e escavando ao seu redor. A quilha e o leme vão aos poucos sendo enterrados e funcionam como forças inversas trabalhando contra as ondas. A guarda costeira exime-se de resgatá-lo porque alega que não há vidas em jogo e no meio da noite havia pouco que se podia fazer na praia deserta.
Não íamos voltar a Espalmador mas quando vimos o CRAPUN, ficamos chocados porque isto pode acontecer com qualquer velejador. Quebrar o cabo é a mais remota das possibilidades e quando estamos amarrados a uma poita, estamos aparentemente mais seguros do que ancorados. Mas quando fatalidades acontecem, não há justificativa, nem explicação. Temos que aceitar e aprender a mudar os planos.
O grande velejador nos deu uma lição! Passado o choque, ele começou a trabalhar com as possibilidades de resgate do barco. Os velejadores que estão aqui ficaram todos sensibilizados e todos resolveram ajudar. Foi aos poucos se formando uma COMUNIDADE. Mudamos os nossos planos e adotamos o Hélio para que ele usasse o CASULO como base para contatos e contasse com a nossa estrutura para se concentrar só no barco. Estamos todos torcendo por ele e admiramos muito a sua resiliência. CRAPUN significa no dialeto milanês: teimoso, cabeça dura e o nosso grande capitão Hélio é assim mesmo! Depois de tudo ele passou, não vai ser este episódio que vai acabar com seu sonho. Sabemos que depois de recuperar o CRAPUN, ainda vamos vê-los velejando por muitos mares!
