Uma família brasileira pelo mundo

Archive for September, 2009

Nós não vemos as coisas como elas são, vemos como NÓS SOMOS.

Wednesday, September 30th, 2009

              We don’t see things as they are, we see things as we are. – Anais Nin

A gente passa um tempão sem atualizar o blog, mas quando tem uma chance tenta compensar.

A travessia foi difícil e quando chegamos bem perto de Gibraltar a caminho de Cádiz, nosso destino, percebemos que um motor estava sem funcionar.
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Hélice perdida. Não adianta reclamar. E Se…

Se, não funciona. Aconteceu e agora?
Dá-se um RESET e alteram-se os planos.

Dá-se um RESET e alteram-se os planos.
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O trabalho agora é buscar fornecedores para repôr as peças que foram perdidas. Gibraltar é um ponto estratégico para barcos. Aqui é o encontro do Mediterrâneo com o Atlântico e o trânsito é enorme. Lojas de equipamentos náuticos estão por toda a parte. Depois de muita luta, o João conseguiu internet a bordo. O sinal é de celular e portanto limitado. Conversar de skype, nem pensar. Mas vai ser fundamental para os contatos via email e pesquisas quanto a decisões que temos que tomar pela frente.
O Ivan que não conhecia Gibraltar, foi fazer logo a primeira exploração. A Rocha é o principal ponto turístico com seus macacos que ficam perambulando no alto. Passei esta programação que já tínhamos feito há dois anos atrás e o Ivan corajoso depois de sentir a subida sozinho, resolveu levar as crianças.
Aproveitamos para trabalhar no barco. Trabalho aqui não falta!
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A tormenta

Sunday, September 27th, 2009

Depois do Crapun estar seguro em terra, o João resolveu checar a previsão do tempo para organizar a nossa partida para o sul. Os prognósticos eram ruins com chuvas e ventos fortes mudando de direção nos próximos dias. Teríamos que sair no dia seguinte ou passar mais uma semana esperando uma “janela” no tempo. Na manhã seguinte, fomos com o Casulo até o porto para fazer a mudança do Elio. Tivemos um pequeno incidente com uma policial alemã que trabalha no porto e cismou que estávamos querendo desrespeitá-la por estarmos descarregando em um cais comercial. Mais drama. Ela não se sensibilizou por nada. Irredutível e arrogante. Mais drama. Tivemos que atracar o Casulo no cais da gasolina e descer para fazer um recurso na Capitania. Elio e João juntos, ninguém segura, não é? Usando toda a diplomacia, conseguiram tirar a multa de 600 euros. 
Faz-se mais uma vez supermercado enquanto está atracado. Estoca-se e iça-se vela.
O primeiro trecho foi aparentemente cruel. O mar estava confuso e o CASULO balançou um bocado. Fiquei mal talvez por ter passado tanto tempo fazendo trechos curtos. Foram quase dois meses no paraíso das ilhas Baleares fazendo viagens que duravam poucas horas.
Organizamos os turnos de vigília para os três. João ficava de 2200 até 0100, Ivan ficava de 0100 até 0400 e eu ficava de 0400 até 0700. Neste período, cada um se responsabiliza pela segurança do barco, checando pelo radar e pelo AIS qualquer ameça que possa vir contra o CASULO. Temos que monitorar o vento e ajustar a vela ou o curso para garantir o melhor desempenho. Qualquer som, qualquer movimento diferente pode indicar um perigo e a responsabilidade de quem está fazendo o shift (turno) é enorme! Como estava sem sono, troquei com o Ivan e tive a chance de ver pela primeira vez os golfinhos fluorescentes!
O segundo dia foi glorioso. O tempo estabilizou e o João conseguiu colocar a parasailor para nos levar. Foi uma velejada suave e muito tranquila. O Capitão colocou a isca despretensiosamente porque a lenda diz que peixe pega-se no alvorescer e no entardescer. Lenda! Pescamos um atum e três dourados! A Marina estava radiante e o João nem se fala.
Comemos o melhor sashimi de atum do mundo! Tratado na hora e preparado com capricho, impossível comer peixe mais fresco e mais natural. Depois comemos dourado frito e atum marinado com gengibre, alho, molho de soja e limão. Foi só peixe!
Mas segundo o ditado, depois da bonança, vem a tempestade! Ou será o contrário? No nosso caso, veio a tempestade! Os ventos mudaram de orientação e o padrão se desfez deixando o mar grande e tulmutuado. As crianças foram proibidas de sair ao convés. Quem tivesse fora, teria que estar com colete salva-vidas e clipado as linhas de segurança do barco. O mar cresceu e as ondas ficaram assustadoras. Nessas horas, não dá para ficar enjoada porque a adrenalina anula tudo. O João começou a se preocupar com a vela que teoricamente aguenta até 30 nós. Usando o raciocínio de kitesurfista, resolveu soltar um cabo para aliviar a pressão. Quando fez isso, tencionou um outro cabo que estourou e chicoteou pelo barco, deixando a vela agitando descontroladamente no céu escuro. Enquanto eu contia o grito de desespero e corri para segurar a vela, o Ivan agiu. A vela por pouco não me leva e me cospe naquele mar encrespado. Com uma tranquilidade fora no normal, o Ivan puxou a camisa que guarda a vela e amarrou o que podia na alça na frente do convés. O João pediu para que eu fosse para o timão, enquanto os dois juntos poderiam domar a vela e guardá-la fora do vento! Foram momentos de muita tensão e o Ivan deu um show de tranquilidade na hora do sufoco.
O resto da viagem foi com os dois motores a toda com um vento través enquanto cruzávamos o estreito de Gibraltar, um dos maiores tráfegos de cargueiros do mundo. Observando pelo monitor, parecia que estávamos jogando um videogame. Era barco para todo lado, vindo de todas as direções!

O resgate

Friday, September 25th, 2009

Depois do acidente do Elio, todo mundo ficou assustado e a guarda costeira resolveu reforçar os avisos sobre o perigo na utilização da poita. O João amarrou com outro cabo por baixo da poita e para garantir usou mais dois cabos nessa amarração de segurança. Todos os barcos fizeram o mesmo e quando o vento aumentava, todos os skippers iam para o convés para checar. Quando algo dá errado no barco, sempre dá MUITO ERRADO.DSC00086 O Elio ficou conosco até o CRAPUN ser levado para a marina aonde começarão os trabalhos para sua recuperação. Foi um presente para nós podermos ter convivido com uma pessoa tão para cima quanto o Elio. Ele brincava com as meninas enquanto fazia charadas, conversou com o Ivan sobre o universo e as constelações, discutiu comigo sobre educação e nossos dilemas sobre o sistema atual e claro filosofou muito com o Capitão. Elio também nos deu muitas dicas sobre o Caribe principalmente Panamá e San Blas. O que nos parecia  muito distante aos poucos começou a ter forma. Trocamos com ele informações sobre a Grécia e Turquia e reforçamos nele o sonho de continuar a viagem porque, apesar de todos os reveses, vale a pena.
Neste período que passamos juntos, o tempo fechou, o vento uivou loucamente e choveu muito enquanto esperávamos o resgate do CRAPUN. Apareceram abutres pedindo preços assombrosos, apareceram dificuldades quanto a operação em si, mas em nenhum momento o Elio esmoreceu. Ele sempre acordava primeiro e ia para fora do barco na esperança de que aquele fosse o dia no qual o CRAPUN ia ser salvo. Todos os dias, ele checava o barco e aliviava a carga trazendo suas coisas para o CASULO. Ninguém conseguia nem andar no nosso convés mas praticamente tudo foi estocado com segurança.

Aqui o Crapun ainda na praia. As primeras movimentações para o início do resgate.    
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A operação foi complexa e todo mundo que estava na pequena baía de Espalmador veio para ajudar. O barco de resgate teve a idéia de cavar um canal na parte rasa em frente ao Crapun utilizando a sua hélice com toda a velocidade para deslocar a areia no fundo do mar e com a contribuição de todos puxando ao mesmo tempo, o barco conseguiu ser colocado na água e flutuar com o auxílio das bóias. A idéia foi genial. Os engenheiros, físicos e técnicos que estavam envolvidos na operçaõ ficaram impressionados com a sacada de usar as hélices para fazer um canal artificial submerso.

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Vendo o Crapun assim, soltei um suspiro e pensei em voz alta. “O Crapun nunca mais será o mesmo…” A Marina que saca tudo, respondeu na hora: “Vai ser melhor, Mamãe. Muito melhor!” De fato, o Elio vai dar tudo de si e vai refazer o Crapun com todas as modificações que ele sempre quis. Brincamos com ele e dissemos que dentro de pouco tempo, ele vai decodificar tudo de Formentera aonde ele trabalhará no inverno. Queremos uma foto do Crapun de novo na água estourando uma garrafa de champagne no casco para celebrar o novo começo.

Quanto assusta um tufão?

Monday, September 21st, 2009

Para quem nunca viu, realmente é de apavorar principalmente quando se está em um barco no meio do mar! Este fenômeno é comum no hemisfério norte a ocorrência de tempestades de grandes proporções, isso ocorre principalmente no fim do verão e início do outono, quando as águas dos oceanos sofrem mudanças de aquecimento. Vejam a imagem por vocês mesmos e formem sua opinião.
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CRAPUN

Monday, September 21st, 2009

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Fatalidades acontecem com todo mundo. A gente nunca sabe quando chega a hora. Ah, se soubesse… Há alguns dias atrás conhecemos o Hélio e tivemos um encontro memorável. Saímos da baía de Espalmador para ficar mais protegidos. O vento que vinha não era nada extraordinário mas como eu passo mal com qualquer balancinho, o Capitão resolveu procurar abrigo. O Crapun do Hélio ficou em Espalmador seguro em uma poita. Acontece que o vento foi contínuo durante a noite chegando a picos de 32 nós. O anel que segurava o seu cabo a poita era de metal e fico forçando e esgarçando o cabo durante horas. Imperceptível para quem está a bordo. Até que o cabo rompe-se a 1 hora da madrugada. De sopetão, o velejador luta e faz tudo ao seu alcance para impedir o choque do seu barco. Ele ainda conseguiu ligar o motor que pelo retardo natural pouco adiantou, soltou o que pode de âncora mas o solo arenoso e muito arado pelas âncoras de outros barcos também não conseguiu evitar o encalhe! No primeiro momento, o barco pousa na areia suave mas ao longo da noite as ondas foram empurrando para a praia e escavando ao seu redor. A quilha e o leme vão aos poucos sendo enterrados e funcionam como forças inversas trabalhando contra as ondas. A guarda costeira exime-se de resgatá-lo porque alega que não há vidas em jogo e no meio da noite havia pouco que se podia fazer na praia deserta.
Não íamos voltar a Espalmador mas quando vimos o CRAPUN, ficamos chocados porque isto pode acontecer com qualquer velejador. Quebrar o cabo é a mais remota das possibilidades e quando estamos amarrados a uma poita, estamos aparentemente mais seguros do que ancorados. Mas quando fatalidades acontecem, não há justificativa, nem explicação. Temos que aceitar e aprender a mudar os planos.
O grande velejador nos deu uma lição! Passado o choque, ele começou a trabalhar com as possibilidades de resgate do barco. Os velejadores que estão aqui ficaram todos sensibilizados e todos resolveram ajudar. Foi aos poucos se formando uma COMUNIDADE. Mudamos os nossos planos e adotamos o Hélio para que ele usasse o CASULO como base para contatos e contasse com a nossa estrutura para se concentrar só no barco. Estamos todos torcendo por ele e admiramos muito a sua resiliência. CRAPUN significa no dialeto milanês: teimoso, cabeça dura e o nosso grande capitão Hélio é assim mesmo! Depois de tudo ele passou, não vai ser este episódio que vai acabar com seu sonho. Sabemos que depois de recuperar o CRAPUN, ainda vamos vê-los velejando por muitos mares!

Medusas por Ivan

Saturday, September 19th, 2009

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Lotação esgotada?

Friday, September 18th, 2009

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Sempre pensávamos qual a capacidade máxima do Casulo? É como perguntar qual a capacidade máxima de pessoas que podemos gostar? Até agora o nosso recorde tinha sido 9, mas destes 5 eram crianças. Desta vez, foram 7 adultos e 2 crianças! Foi um acampamento total. Como a capacidade de gostar depende de quem você gosta, também constatamos que a capacidade do Casulo depende de quem recebemos. O aperto valeu a pena e aprendemos que para ter bons amigos, qualquer sacrifício compensa.
Newton, Cristiana, Germano e Bernadete deram um show de convivência a bordo. Foram momentos incríveis de passamos juntos. Fazia tempo que não convivia com meus primos grandes. O reencontro foi muito bonito pois percebemos que a nossa ligação não é mais consanguinea mas de valores. Germano pescou, Bernadete lavou os pratos, Newton aprendeu sobre navegação com o Capitão, a Doutora Cristiana deu as ordens e tudo funcionou direitinho. Aprenderam até a ter toalha comunitária, comer só duas vezes por dia e lavar sem água! 
SDC10877SDC10915SDC10911 Queríamos agradecer o esforço que eles fizeram para conhecer a nossa experiência no Casulo. Foi um tempo curto e muito intenso mas valeu muito! Estão fazendo parte da nossa história e para sempre estarão em nossos corações.

Ou o barco ou eu!

Thursday, September 17th, 2009

Finalmente conhecemos um barco com bandeira brasileira! O grande velejador Hélio que já fez o Brasil de ponta a ponta e já desbravou o Caribe, resolveu velejar mais longe e conhecer o mediterrâneo. Tudo isto SOLO! O nosso encontro foi uma grande emoção e os assuntos não esgotavam. Ele queria saber tudo das Baleares até a Turquia e nós estávamos querendo saber tudo sobre as ilhas Caribenhas e a costa da América do Sul. Enquanto eu temperava o peixão para receber o Newton, a Cristiana, o Germano e a Bernadete, o João e o Ivan ficaram trocando muita informação com ele. Um cara super astral que foi professor de física na Unicamp. O João perguntou: “Professor de física? Decidiu que pirou de vez e resolver viver no barco?”. Ele nos disse que era um sonho antigo e que ele ponderou muito e viu que era a hora. Filhos criados, carreira estabilizada, ele viu que o tempo estava passando. Chamou a esposa e propôs o plano louco de viver em um barco! Sua esposa chegou para ele e disse: Ou o barco ou eu! Resultado: os dois se divorciaram amigavelmente e ele comprou o seu sonhado barco. Comemoraram o divórcio juntos em uma lua de mel pela Europa! Hoje ele já tem muitas milhas náuticas nas costas e muitas experiências para contar. Ela encontra-o sempre nos lugares mais bacanas e os dois estão namorando…
Tivemos que interromper a conversa para velejar até o outro lado de Formentera para pegar nossos amigos. O vento vai pegar aqui e para a primeira noite a bordo dos nossos convidados, temos que minimizar o impacto. Queremos muito ver o Hélio de novo. Quem sabe?
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Antes da tempestade

Saturday, September 12th, 2009

Depois que a amiga do Ivan foi embora, fomos para a ilha de Formentera. Nossa preferida há dois anos atrás quando estivemos aqui com o Marcelo, a Andréa, Renata, Felipe e Fernandinha. Foi uma farra! A água transparente e uma baía muito protegida fazem da menor ilha das Baleares um lugar muito especial.

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Este banho de lama sulfúrica é aparentemente excelente para a pele! Se não for de fato, nós nos divertimos muito rolando na lama e flutuando na pasta gosmenta que exalava enxofre.

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Depois do peixão, a isca continuou na água

Thursday, September 10th, 2009

Nunca se sabe, não é? Depois do peixe enorme que ainda não sabemos se era peixe-espada ou marlin branco (quem tiver opinião formada, pode nos esclarecer!), a isca rabala continuou na água e pegamos mais um peixão.DSC00042DSC00048

O freezer está de fato lotado e não sabemos mais o que fazer com tanto peixe. Quando chegamos em Ibiza, o João resolve ir ao mercado e vender pelo menos uma parte. Ele olha os peixes em exposição e nem se comparam com o nosso fresquinho e enorme. Chega para o primeiro barraqueiro e diz que pescou um peixe-espada. O vendedor imediatamente se interessa pois ele consegue vender por €26.00 o quilo! Negociam o preço até que o vendedor pergunta para o João se ele tem nota fiscal do peixe. “Nota fiscal? Mas eu não vivo disso.” Sem nota fiscal, o cara não fez negócio. Nem um dos outros peixeiros queria comprar sem nota. O João ainda sugeriu para um: “Quem sabe eu não faço permuta com um restaurante?” O peixeiro muito educadamente retrucou: “Se fizer, eu denuncio o restaurante. Eu vivo disto, pagando meus impostos. Por que, o restaurante vai querer driblar e escapar de pagar IVA?”
Ficamos impressionados com o senso cívico. Imagina no Brasil, os pescadores emitindo nota fiscal sobre os peixes. Imagina os barraqueiros exigindo nota e legalização das mercadorias.
Como o produto da pescaria do capitão não foi vendido, tivemos que comer peixe no café-da-manhã, no almoço e no jantar!