Uma família brasileira pelo mundo

Sorte ou azar?

Há um tempo atrás, eu li um livro em inglês que se chamava algo como Zen budismo para crianças. Apesar do título pretensioso e da leitura rápida e descompromissada, o livro era uma interessante coletânea de fábulas que procuravam passar mensagens de Buda. A estória que mais me chamou atenção foi uma que nos fazia refletir sobre o que era sorte ou azar. No conto, um jovem acidentalmente quebra a perna. O narrador pergunta: “Sorte ou azar?” Azar, respondi com segurança. O narrador continua o relato com um tom malicioso. “Dias depois é deflagrada naquele país uma guerra e todos os jovens são alistados para o combate, exceto o jovem cuja perna foi quebrada. Sorte ou azar?” Sorte! O narrador então prosegue com uma série de eventos alternados que se sucedem desencadeando outros inesperados. Esta cadeia de eventos que se entrelaça e se expande desafia nossa definição simplória de sorte e azar, alertando-nos para a possibilidade de ver além do agora e e admitir que o estamos vendo no momento como negativo pode nos levar a consequências positivas.
Isto aconteceu ontem aqui em Siracusa. O plano era acordar cedo e ir ao mercado local para abastecer. É sempre uma excelente oportunidade para experimentar os produtos locais, frescos e comercializados por gente também da terra. Acabamos acordando tarde e demorando para preparar o café da manhã das crianças. O Ivan está com uma amiga alemã a bordo e a rotina ficou um pouco alterada.DSC08855

Tempo suficiente para a guarda costeira Italiana nos pedir para mudar a posição do barco pois estava na zona de acesso para a marina e para o canal. Pouco mas estava. Resolvemos fazer a mudança logo antes da nossa incursão na cidade. Tiro a âncora, o João maneja o Casulo e vamos procurar um lugar na disputada baía de Siracusa. Tentamos uma vez mas a âncora não segurou no chão lamacento. Sobe-se a âncora de novo e começa-se de novo em outro lugar. Às vezes temos que fazer isto várias vezes para garantir que a âncora não draga. Para ter certeza, o Capitão sempre dá uma ré forte no barco como que simulando uma ventania para confirmar que a âncora está segura. Ontem, enquanto ele dava rá, o motor apitou e parou. Piiiiiiiiiii = problema! A corda do dinghy enrosca no motor e por segurança, o motor trava. O João pega a máscara e snorlkel e mergulha para resolver. Mergulha várias vezes mas a corda parecia impossível de desenroscar entre a hélice e o suporte cônico que a encerrava. O João faz hiperventilação para ficar submerso mais tempo, em vão. Peremptório, ele diz que tem que cortar a corda. Corda cortada e ainda mais enganchada, sem ceder.  O jeito é mergulhar com tanque para poder trabalhar embaixo d´água com calma. Longos minutos depois, ele emerge triunfante com a corda.  Antes de sair, ele resolver checar o outro motor e vê uma diferença entre os dois. Está faltando parafuso! A hélice do motor de bomobordo estava solta!
Por causa da corda enroscada e da sacada dele de observar e comparar os motores, ele viu que a hélice estava completamente solta e poderíamos perdê-la a qualquer momento. Então a corda foi “Sorte ou azar?”
Na caixa dele de ferramentas que tem quase tudo, ele encontrou o parafuso do diâmetro certo, as aruelas adequadas. Porque tínhamos o tanque de mergulho cheio, o conserto embaixo d´água conseguiu ser feito pelo Capitão improvisando uma ferramenta ou outra.

DSC08856 Por causa deste evento, não saímos da baía conforme o previsto, não fomos ao mercado e acabamos transferindo tudo para amanhã. Sorte ou azar? Só o tempo dirá…

Share and Enjoy:
  • Digg
  • del.icio.us
AddThis Social Bookmark Button

   

One Response to “Sorte ou azar?”

  1. Dandan Says:

    Caros Tios Sol e João,

    esta é minha primeira visita ao casulo on line! Parabéns, certamente aparecerei mais vezes. Fica o pedido: não deixem esse espaço de reflexão passar em branco. Filosofia em alto mar pode ser um capítulo especial desta experiência! Refletindo sobre o tema acima exposto, conclui que a palavra de ordem é ALEATORIEDADE. Esse é um dos grandes baratos da vida. As coisas acontecem aleatoriamente, a gente só precisa conseguir tirar lições proveitosas disso. Devemos estar tão atentos a tudo quanto o capitão do Casulo!!! O que era azar pode ser transformado em sorte e vice e versa. Os religiosos preferem discutir a vontade de Deus, postura esta que também tem o seu valor! Fico por aqui com a minha travessia rumo ao desconhecido futuro profissional. Beijão nos dois!
    Dandan

Leave a Reply