Uma família brasileira pelo mundo

Como não sofrer por antecipação?

Ontem passamos por uma situação que mexeu muito comigo. Consegui finalmente marcar uma consulta médica para as crianças. Quando eu falei isto, a minha filha mas velha começou a ficar em pânico. “Será que vou ter que fazer exame de sangue?”, ela começou a me perguntar com olhar rogatório para que a assegurasse do contrário. “Talvez”, tive que responder com a sinceridade da dúvida. Na sala de espera, ela já começou a reclamar de dores do estômago e sutilmente pediu colo. Durante a consulta, ela estava agitada e ansiosa e de vez em quando soltava a pergunta crucial de novo – “exame de sangue?”. O veredito final foi o mais desesperador para ela: teria sim exame de sangue. “Vamos fazer logo?” sugeri querendo livrá-la daquele suplício. Pseudo, para mim, mas mais do que real para ela que já estava com as mãozinhas suadas sofrendo com todas as imagens de enfermeiras megeras amarrando-a, arrastando-a por entre corredores, sangue jorrando por todos os lados e gritos aterrorizantes ampliados por paredes imaculadamente brancas. Não adiantava tentar convencê-la do contrário. As palavras eram vãs, armas pífias, diante do horror potencializado pelas suas imagens mentais. Conversamos sobre outros assuntos com o objetivo de distraí-la mas o redemoinho mental em que ela se encontrava era muito mais poderoso. Fizemos as fichas em um laboratório vazio de final de tarde e fomos rapidamente atendidas. A minha filha caçula se prontificou para ser a primeira. Deu o grito e choro clássicos e fim. Abracei-a com carinho e acabou para ela. A outra estava em estado de choque na cadeira ao lado. Um choro aterrorizado desencadeado pelo grito da outra. Pânico. Medo. Todas as imagens mentais materializaram-se a partir do grito da irmã. Quem a convenceria do contrário? Esperneou, chorou, implorou por tudo para que escapasse daquela execução sumária. Diante da situação, um grupo de enfermeiros começou a circundá-la e olhar para mim como que dizendo: “Ao seu comando, ela está no papo!” Abracei-a mais forte e pedi a todos gentilmente que nos deixassem sozinhas. Levantamos, tomamos água e conversamos mais um pouco sempre reafirmando que ela tinha que fazer o bendito exame: voluntariamente ou à força. Voltamos para a cadeira da enfermaria (para ela, elétrica!) e tentamos de novo com ela sentada ao meu colo. Ela colocou a mão a contra-gosto e travou-se. Tivemos que dar um empurrãzinho para que ela mantivesse o braço quieto. Um minúsculo furinho e muito gritos depois, a amostra de sangue estava finalmente colhida.
A reflexão é como sofremos tanto por antecipação? Como criamos imagens mentais tão fortes que nos assolam e nos afligem muito mais que a realidade? Como desmontar desde a infância estes mecanismos negativos? Como trabalhar desde cedo a nossa capacidade de criar um repertório mental que nos proteja para enfrentar o que está por vir?

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